À Luz da Palavra – XXV Domingo Comum – Ano C A liturgia deste domingo propõe-nos uma profunda reflexão sobre o lugar que os bens materiais devem ocupar na nossa vida de discípulos de Jesus. Convida-nos a lutar contra a ganância e o desejo imoderado de riqueza, sobretudo quando ela nos pode advir mediante a prática de injustiças e de exploração dos outros.
Na primeira leitura, o profeta Amós manifesta-se escandalizado com a avidez e fraude dos comerciantes ricos do seu tempo: espezinham o pobre, aumentando o preço dos cereais e construindo medidas falsas, vendendo-lhe o que já não presta, no intuito de se tornarem ainda mais ricos. Esta atitude, censurada pelo profeta, faz-me pensar nas inúmeras fraudes dos nossos tempos: como a manutenção das guerras nos países mais pobres, porque dá proveito aos ricos; a proibição de investigar a cura de algumas doenças, como, por exemplo, a malária, que mata milhões de pessoas, porque o laboratório que produz o medicamento não o permite… E, se nos detivermos em casos mais particulares e até pessoais, poderemos descobrir, nas nossas práticas quotidianas, mil e uma circunstâncias em que estamos longe de ser honestos e de praticar a justiça, ou melhor, a caridade evangélica. Espezinhamos o fraco e o humilde, tanto por palavras como por obras, sempre que nos fazemos donos da verdade e das coisas.
No evangelho, Jesus conta a parábola de um administrador infiel, que desperdiçava os bens do seu patrão, primeiramente, para, em seguida, ao ser despedido pela sua má gerência, se considerar dono desses mesmos bens a favor dos devedores e em seu proveito pessoal. Jesus elogia a esperteza deste administrador, porque foi hábil em granjear amigos para o acolherem ao ser despedido, utilizando para esse efeito os bens alheios, os do seu patrão. Todos sabemos que hoje há formas bem mais espertas e sofisticadas de roubo e exploração. Porém, na parábola de hoje, Jesus quer oferecer aos seus discípulos o exemplo de um homem que percebeu como os bens deste mundo eram frágeis e precários e que os usou para assegurar valores mais duradouros e consistentes… Jesus avisa os seus discípulos para fazerem o mesmo.
Na segunda leitura, Paulo aconselha veementemente a rezarmos pelos nossos governantes, para que nos conduzam a uma vida tranquila e pacífica, com piedade e dignidade. Porque a sua missão primordial é serem bons administradores dos bens públicos e velarem por que se reponha a justiça, onde quer que esta seja lesada. Porém, hoje ninguém acredita nos governantes, porque são vistos, sobretudo, como pessoas que fazem reverter em seu favor os bens que são de todos nós, e que deviam gerir em proveito do povo. A corrupção de muitos detentores de poder, com todos os seus contornos, vai-se desmascarando no dia-a-dia. E, no entanto, os governantes têm como missão ser os garantes de uma sã organização social e de uma justa distribuição dos recursos. Por isso, é bom seguir o conselho de Paulo: rezar por eles para que cumpram a sua missão e não caiam nas malhas das tentações a que estão sujeitos.
XXV Domingo Comum: Am 8,4-7; Sl 113 (112); 1 Tm 2,1-8; Lc 16,1-13
Deolinda Serralheiro
