Questões Sociais Recentemente foi publicada nesta coluna uma pequena série de artigos sobre «quem nos governa». Aí se realçava o poder dos interesses subterrâneos, que actuam à margem da lei e da moral.
Entretanto o jornalista José Vegar subscreveu um conjunto de quatro artigos sobre a «economia do mal», no suplemento «Economia» do jornal «Público». O artigo, publicado em 31 de Agosto, intitula-se «a replicação das estratégias do capitalismo contemporâneo», e baseia-se em várias fontes, tais como a ONU, o Fundo Monetário Internacional, a OCDE, o Conselho da Europa, a EUROPOL e alguns investigadores. Justifica-se deixar aqui registadas algumas informações que são deveras significativas e preocupantes.
O Prof. F. Schneider, da Universidade austríaca de Linz, elaborou um estudo relativo a «145 países, incluindo alguns dos mais desenvolvidos do mundo (…)». Nele «aponta para que 35,2 por cento» das respectivas economias sejam de carácter subterrâneo; é possível que se incluam aqui as actividades económicas informais que não são de natureza criminosa. Segundo fontes diversas, destacam-se, nas actividades criminosas, «o tráfico de drogas e a imigração ilegal, seguidas pela falsificação de documentos e de cartões de crédito, o tráfico de armas e de órgãos humanos, a divulgação de pornografia infantil, o crime informático, o contrabando de tabaco e álcool, a contrafacção e a fraude (…). A ameaça mais preocupante prende-se com a infiltração de empresas legais e com a corrupção de funcionários públicos». «O departamento de Estado dos EUA calcula que o mercado mundial das drogas, com predomínio da heroína e da cocaína, atinja os 2 triliões de dólares por ano, e a ONU estabelece em 13 biliões de dólares anuais o valor obtido pelos grupos que controlam a imigração ilegal e o tráfico de pessoas. Por seu turno, a EUROPOL calcula em 24 biliões de dólares o lucro da venda ou exibição «on line» de pornografia infantil (…)». Também segundo fontes diversas, as organizações do crime funcionam como «entidades que, tal como as empresas, utilizam todos os meios ao seu alcance para captação do mais alto nível de lucro e poder (…)».
Num outro tipo de reflexão podemos acrescentar que estas entidades se distribuem por três grupos fundamentais: entidades submersas, não visíveis; entidades «pontas de iceberg», ou «testas de ferrro»; e entidades regulares que procuram actuar de acordo com a lei e a moral, mas podem ser utilizadas por redes criminosas, sem o saberem ou sob ameaça ou como via de sobrevivência. Em larga medida, as autoridades e as opiniões públicas dos países democráticos ocupam-se, especialmente, deste último grupo, e culpabilizam inclusivamente entidades inocentes, cujos processos de defesa se arrastam durante muitos anos. Enquanto se vão ocupando destes casos, as organizações do crime mais poderosas vêem aumentado o seu espaço de manobra e de liberdade. Parece que aquelas autoridades e opiniões públicas antes querem enlamear pessoas e instituições do que retirar a lama dos locais onde ela se encontra, em mais quantidade e com mais gravidade. Corre-se, assim, o risco de «enfraquecimento do Estado e das empresas(…)».
