O início de um ano apostólico é ocasião oportuna para ganhar novo fôlego, para recriar métodos e atitudes, para imaginar novos caminhos…, sem receios de quebrar a Tradição, sem medo de infidelidades.
Em verdade, a Tradição não é a repetição esclerosada e bafienta do passado. É, ao contrário, a transmissão viva e actualizada da Verdade perene, que em cada tempo se aprofunda mais, que com cada vivência eclesial se enriquece, a partir da regra última dessa mesma Tradição, que é a sagrada Escritura. Essa é a única forma de ser fiel à mensagem de sempre e à pessoa concreta de cada tempo: fidelidade e actualização.
No primeiro ano de um novo pastor a conduzir os destinos da Diocese, após alguns meses de contacto sereno para reconhecer o rebanho que lhe foi confiado e a circunstância em que esse mesmo vive; com um objectivo de trabalho voltado essencialmente para a Caridade – que é a expressão concreta da totalidade do Evangelho, uma vez que ela exprime o Amor gratuito do Pai, consubstanciado na entrega do Filho e actuado pelo Espírito em benefício de toda a pessoa humana,… o que é que mais oportunidade terá do que a “fantasia da caridade”, suscitada por tantas e tão diversificadas formas de pobreza a reclamar novas “obras de Misericórdia”, corporais e espirituais?…
A melhor forma de sermos fiéis ao legado inicial e à vida que esta Igreja de Aveiro desenvolveu na sua história recente será a ousadia da renovação permanente. Sem este eros-amor, que nos apaixone pelo presente, pleno de problemas, mas cheio de oportunidades, continuaremos a caminhar para a insignificância no mundo, a deixar deteriorar a nossa qualidade de sal, a perder o vigor de fermento. Em nome das tradições, faltaremos gravemente à continuidade da Tradição.
Haverá sempre uma tensão – sadia! – entre a constante busca da verdade fundante e a necessidade de resposta às circunstâncias históricas que integramos. Aí reside o vigor do Evangelho: fecundar a acção humana na história, tornando essa história salvífica. Sempre terá de se apresentar como novidade o Amor incarnado. Novo impulso, novos métodos, permanente atenção à realidade, profunda intimidade com a Fonte, eis os ingredientes que poderão fazer deste ano que iniciamos único, como deverão ser todos os anos que iniciamos!
Sempre e cada vez mais ganham força as palavras do Mestre: “Duc in altum”- faz-te ao largo! Só assim haverá mar profundo para acatar a sequência do mandato: “Lançai as redes”. Com realismo e esperança!
