Gosto muito

À Luz do dia da lua cheia

do silêncio puro

da geometria da minha rua

dos dias compridos

de abraços demorados

de sorrisos no elevador

de pessoas autênticas

de conversas eternas

das janelas todas abertas sobre o rio e a cidade

de luzes baixas e amarelas dentro de casa

de quadros grandes

da cor do fogo

de todas as estrelas do céu

do sol da manhã e da luz do dia

do barulho do mar ao entardecer

da maré vazia ao fim do dia

do vento, quando deixa marcas na areia lisa

do rumor vegetal das folhas nas árvores

do manto lilás de folhas de jacarandá que cobre o chão

de coincidências, surpresas e milagres

de ver pessoas felizes

de olhos que riem

de cidades grandes com rio

da voz dos que amo

de estar calada

da casa cheia de amigos

de jantares improvisados

de ouvir tocar piano e violino, sempre

de ficar abstracta, às vezes

de livros e de poetas

de acordar tarde

de certas rotinas

de me esquecer das horas

da areia da praia ao meio dia, quando está a ferver

das vozes combinadas no ar nas tardes de calor

do rapaz que passa na mota, ao meu lado

de quando sai a correr para a última fotografia com a luz do dia

dele muito mais do que de ninguém

de saber que ele sabe isso

gosto da luz dourada do entardecer reflectida nos seus olhos

gosto da intimidade

da verdade e da cumplicidade

de templos e lugares sagrados

de horizontes líquidos

do azul infinito

de riscos brancos no céu

da cor púrpura do entardecer

de histórias de pessoas

de descobrir umas mãos fortes

de ir mais longe com alguém

dos que rezam comigo

da lua árabe com uma estrela, no alto do céu

de ficar em casa, embalada nos barulhos da casa

de ainda ter comigo todos os que mais amo

de adormecer e de sonhar acordada

de amar e ser amada

de alguém em especial

do amor dos amigos também

de estar com eles na praia até ser noite

de tantas outras coisas

e da vida, todos os dias.

Nota da Direcção:

Com este texto termina a colaboração de Laurinda Alves com o Correio do Vouga, pelo menos nos moldes actuais. O Correio do Vouga gostou muito de publicar esporadicamente as suas crónicas sempre tão bem acolhidas. Este semanário está muito grato a Laurinda Alves e deseja-lhe a maior felicidade.