As afirmações sonantes, especialmente as proferidas em momentos de emoção exacerbada, poderão induzir em erros graves, desencadeando até reacções surpreendentes, nefastas pela certa, de consequências imprevisíveis.
Dizer-se, por exemplo, em sessão comemorativa dos cinquenta anos de um facto relevante, como foi o I Congresso Republicano, que a escola pública é a “instituição central” para a “libertação do atavismo”, para a “igualdade de oportunidades”, para a “emancipação pessoal”, é lançar poeira que pode limitar a visão de muitos.
Na verdade, ao falar-se de escola pública está a falar-se de escola estatal. Ora, como tantas vezes e tantos têm referido, o estatal é um serviço do público, bem mais vasto, que integra iniciativas estatais e iniciativas de pessoas ou grupos/forças sociais. De outro modo, estaremos, veladamente, a navegar em pleno totalitarismo educativo – o que é expressamente vedado ao Estado, seja ele republicano ou não.
Mais: dando-se este pressuposto – de identificar público com estatal -, não há maneira possível de nos libertarmos de atavismos, de termos igualdade de oportunidades, de nos emanciparmos…, porque estaremos submetidos a enclausurados arquétipos de novas oligarquias pensantes, sem qualquer espécie e hipótese de opinião própria, de projecto ou horizonte educativo diverso e plural.
Mais: se “educação cívica nos currículos” significa transformar a legítima laicidade do Estado em cartilha obrigatória para todos, de laicismo militante, em vez de cidadãos teremos forçados consumidores da ideologia dos “iluminados”, a degenerar em robots reprodutores de ideias intolerantes. E, mais uma vez, se violam direitos fundamentais: de opinião, de expressão, de liberdade de aprender e ensinar, de liberdade de religião…
“Ainda a procissão vai no adro”, isto é: a três anos da comemoração do centenário da República, não é difícil perceber que intenções povoam as mentes dos prováveis organizadores da iniciativa; que os programas levarão a marca de um dirigismo implacável, desrespeitando, mais uma vez, aqueles a quem deveriam servir.
Curioso é que, em dia da República, a homenagem do povo simples de uma das nossas terras de Aveiro a um dos congressistas de há cinquenta anos nele reconhecia um verdadeiro cidadão, liberto de atavismos, pela sua entrega esmerada à profissão, pela sua generosa partilha de serviços e bens, sem alergias a ombrear com pessoas e organizações religiosas para melhor cumprir os seus ideais republicanos… E isso lhe dava a ousadia de celebrar sempre a República, com o povo, mesmo sabendo que no dia seguinte teria a multa para pagar, por ter infringido as leis do proibitivo Estado novo.
Para sermos livres, teremos de infringir, proximamente, as leis do Estado vigente?…
