Eu estive lá – Testemunho da minha experiência missionária Outubro é o mês em que a Igreja universal lembra que ser missionário é dimensão inerente a todo o cristão.
O Correio do Vouga inicia esta semana a publicação de testemunhos de jovens da diocese de Aveiro que passaram parte do Verão em “países de missão”. Em Agosto, Gisela Ferreira esteve como voluntária na Guiné-Bissau. Agora, conta-nos as suas vivências.
BI
Gisela Maria Rodrigues Ferreira
23 anos
É da Paróquia de Esgueira
Licenciada em Animação Cultural
Frequenta uma pós-graduação em Educação Especial
Trabalha em part-time num centro comercial
Estive na missão católica Safim, na Guiné. Diziam-nos que fica a 15 km de Bissau, mas quando íamos à capital parecia mais. Fui em missão com a Patrícia Rodrigues e a Isabel Fernandes. Fomos no final de Julho e regressámos a 31 de Agosto. Estivemos lá 34 dias.
Fomos acolhidas pelas Irmãs de São José de Cluny, uma congregação religiosa com origem em Cluny-França, uma terra muito perto de Taizé, lugar muito espiritual, onde já estive. As irmãs eram quatro: a Irmã Bernardete, que fundou aquele centro de missão e é enfermeira; a Irmã Cecília, que trata mais da lida da casa e acompanha as pessoas na tabanca; a Irmã Fernanda e a Irmã Fátima, que estão mais ligadas ao Jardim. São de origem angolana.
Estivemos a dar reforço de Língua Portuguesa a professores e educadores de infância. Também trabalhei com crianças. Fizemos jogos, actividades de expressão plástica, musical, corporal…
Fiquei impressionada por ver mamãs e bebés desnutridos… Mui-tas das pessoas fazem uma refeição por dia, duas no máximo. O almoço é muito tarde, de forma a pouparem uma refeição. Quando estive doente, demonstraram grande preocupação comigo, tanto as irmãs e companheiras de caminhada/missão, como as pessoas de lá, inclusive os alunos a quem dávamos aulas e as pessoas das tabancas.
Quando passávamos pela rua, os meninos pediam-nos amêndoa (doces, rebuçados). Mas, no meio do caos, da pobreza, da miséria, havia generosidade. Uma vez, a caminho da Eucaristia, ao passarmos numa tabanca, as pessoas que estavam a fazer uma refeição chamaram-nos para irmos comer também. No último dia, as crianças foram despedir-se de nós. Via-se naquele olhar tudo o que nos proporcionaram: alegria, música, dança…
Achei engraçado que as crianças perguntassem o que eram os pontos castanhos na nossa pele. Pensavam que os sinais eram pulgas. Tocavam no nosso cabelo e pediam para que, depois de cortado, o enviássemos para lá, para fazerem tranças.
Em África tudo é diferente. Uma vez, deitamo-nos no chão a ver as estrelas… Outra, vimos macacos, cobras, borboletas – são enormes!
É muito importante ser capaz de estar, viver e de amar outros, contribuindo um pouco para a alegria, para um mundo melhor. Se toda a gente contribuísse pelo menos só um pouquinho e desse um pouco de si…
Fiquei impressionada por certos costumes, como as crianças até aos três anos de idade não terem importância nenhuma, os homens trabalharem pouco (a mulher é que sustenta a casa, vai para o campo, trata da alimentação, da comida, dos filhos), a poligamia… São situações culturais: não se pode julgar assim de repente…
Os professores do Estado há 12 meses que não recebiam o ordenado… Há corrupção. Alguns com muito e muita gente sem nada.
Aprendi a dar mais valor à minha própria vida, a ter mais atenção com certas coisas que antes talvez me passavam um pouco ao lado, como por exemplo a água. Na Guiné chegam a fazer disputas por causa da água.
Fiquei a admirar pessoas que se entregam pelos outros, como a Ivone, a Lúcia, a Cecília e a Antonieta, da organização Leigos para o Desenvolvimento, o Padre Joaquim, português, a Angélica, voluntária italiana, e a Fátima, voluntária portuguesa, ou os professores e educadores que, apesar de tudo, continuam o seu trabalho em busca de uma Guiné melhor: a professora Antónia, a educadora Emília, a Isabel, o Zandonaide, o Moisés, a Lili Sanca, a Paula Vieira, a Filomena…
Gostava de terminar com esta reflexão: “Não é quanto fazemos que é importante, mas quanto amor pomos no fazer. E não é quanto damos que é importante, mas quanto amor pomos no dar. Quem julga as pessoas não tem tempo para as amar. E a falta de amor é a maior de todas as pobrezas” (Madre Teresa de Calcutá).
Gisela Ferreira
