No centenário do nascimento do Cónego Póvoa dos Reis Nasceu a 20 de Outubro de 1907, em Eirol. Padre dedicado e cientista de renome mostrou na sua vida como a fé profunda convive em harmonia com a alta ciência
A freguesia de Eirol jamais poderá esquecer o cónego Manuel Póvoa dos Reis que, além de sacerdote dedicadíssimo, foi educador de gerações e cientista afamado. No próximo dia 20 do corrente mês de Outubro, completam-se precisamente cem anos que nasceu, na referida freguesia do concelho de Aveiro, sendo seus pais Joaquim Simões dos Reis e D. Ana Maria Póvoa, abastados proprietários. Foi aluno da escola primária de Eirol; em seguida, contrariando o pai, que desejava que ele continuasse a sua casa de lavoura, matriculou-se no Liceu de Aveiro; por fim, com a certeza do que desejava para o seu futuro, em Outubro de 1930 ingressou no Seminário Diocesano de Coimbra, onde estudou filosofia e teologia e se preparou para o sacerdócio. Porque era mais velho do que o geral dos condiscípulos, serviu de guia e mesmo de conselheiro de alguns colegas.
O dia 29 de Junho de 1936 foi vivido com muita intimidade espiritual pelo jovem, já com vinte e nove anos de idade; é que, nessa data, D. António Antunes, bispo de Coimbra, procedeu à sua ordenação presbiteral. A Diocese de Aveiro ainda não tinha tido a graça da sua restauração. No dia 5 do mês seguinte, que foi domingo, a sua terra recebeu-o jubilosamente para celebrar, com ele, a Missa Nova.
O padre Póvoa dos Reis, logo em finais do mês de Setembro seguinte, foi destinado ao múnus de prefeito e professor no Seminário Diocesano da Figueira da Foz, onde permaneceu ao longo de um biénio, transitando depois para o de Coimbra; aqui regeu as disciplinas de português arcaico e de ciências (física, química e mineralogia). Além disso, foi nomeado professor de educação moral e religiosa católicas no Liceu de José Falcão (então, de D. João III), onde esteve durante vários anos, e posteriormente também capelão dos Hospitais da Universidade e professor na Escola de Enfermagem dr. Ângelo da Fonseca. Levado pelo desejo de adquirir novos conhecimentos de botânica, em 1949 começou a trabalhar no Instituto Botânico de Coimbra; o respectivo director, vendo a avidez de saber e a capacidade intelectual do padre Póvoa dos Reis, fez que, por alvará de 24 de Agosto de 1956, fosse nomeado assistente extraordinário para a Investigação (Secção de Botânica) na Faculdade de Ciências da Universidade de Coimbra.
Tornou-se notabilíssimo o seu trabalho no domínio das algas. Com a publicação de vários estudos e com a descoberta de novas espécies, o seu nome atravessou as fronteiras nacionais. Em 1943, foi nomeado membro da Sociedade Broteriana e, em 1956, vogal da Secção de Botânica da Universidade de Havard. Fez várias viagens ao estrangeiro, como França, Alemanha e Suécia; neste País, ocupou-se em trabalhos com o prof. Escuya. Tomou parte em muitos congressos para o progresso das Ciências, não só em Portugal, mas também em Espanha e no Canadá, apresentando comunicações. Embora deixasse os serviços oficiais em 1977, por imperativo da Lei, não se resignou em cruzar os braços. Convidado para dirigir estudos de investigação na ria de Aveiro e na pateira de Fermentelos, aí trabalhou afincadamente com outros especialistas.
Dedicação aos jovens
Ao sentir que as forças físicas começavam a faltar-lhe, recolheu-se em Eirol, permanecendo no edifício do Instituto D. Ernesto Sena de Oliveira (I.D.E.S.O.). Esta sua fundação perpetuará o carinho que sempre manteve pelos jovens – seminaristas, estudantes liceais, universitários e outros – especialmente os carenciados de amparo, material e moral, sobretudo durante as férias. A casa, erguida numa sua propriedade, foi construída com o dinheiro que ia recebendo como professor oficial e como capelão dos Hospitais. Hoje, após a sua morte, esse edifício é utilizado no apostolado da juventude, nomeadamente nas actividades do Movimento dos Convívios Fraternos; desta forma, prossegue finalidades idênticas.
O cónego Póvoa dos Reis, depois de passar os últimos meses de vida no Seminário que o havia formado e onde leccionara, aí acabou por falecer, em 5 de Junho de 1991; os restos mortais foram sepultados no cemitério de Eirol, em campa rasa.
Tanta coisa que se poderia dizer deste sacerdote, que comecei a conhecer desde o recuado ano de 1936!… Mais do que uma vez lhe ouvi, em particular e em público, a afirmação de que, quanto mais pensava no imensamente grande, mais admirava o Deus Criador do universo; mas também que, quanto mais se perdia no imensamente pequeno e minúsculo, mais tinha motivos para alicerçar a sua fé no Senhor da natureza. E dizia isto, e repetia-o incessantemente, com verdadeira sinceridade de um amigo fiel, com a extrema simplicidade de um grande homem e com toda a espontânea convicção de um exímio cientista.
Em 15 de Agosto de 2002, a sua terra natal prestou-lhe uma homenagem póstuma, de que constou o descerramento de um busto, à entrada do parque desportivo; a inscrição sotoposta define sinteticamente uma vida inteira: – A Ciência e a Fé na humildade do Homem. Tambéu eu, com esta minha simples anotação, desejo reverenciar este insigne eirolense, sacerdote de grande cultura e virtude.
Comemorações
em Eirol
Em Eirol, no dia 20 de Outubro, sábado, será celebrada a Eucaristia pelo Cónego Póvoa dos Reis, às 19h30, seguindo-se uma sessão solene no Salão da Junta de Freguesia, às 20h45.
