“O professor tem de assumir o papel de referência”

Marçal Grilo, antigo ministro da Educação e actual administrador da Fundação Gulbenkian, sempre atento à realidade do ensino em Portugal, esteve no Centro Universitário Fé e Cultura, na noite de 10 de Outubro. Aqui ficam as suas opiniões e observações sobre uma área que a todos diz respeito

O bom e o pior

No ensino, Portugal é o país do bom e do pior. 60 por cento da população não tem a escolaridade obrigatória concluída; em 1970, havia 29% de analfabetos; os alunos de 15 anos envergonham-nos nos testes do PISA (teste que compara os conhecimentos de alunos de vários países) – tudo indicadores muito negativos, quando nos comparamos com os países nórdicos.

Sinais positivos

Por outro lado, há indicadores de grandes esperanças. Cresce o número de investigadores nas universidades portuguesas; aumenta o número de doutorados, de 300 por ano na década de 1990 para cerca de mil na actualidade; aumenta o número de “papers” (artigos científicos) nas revistas da especialidade.

Justificação verdadeira?

Há uma tendência para justificar os maus resultados do ensino com a origem social e o nível económico dos portugueses. Esses factores podem ter alguma influência, mas não justificam tudo. Além do mais, podem ser resolvidos pela acção política.

Família desistente

Há uma tentativa de atribuir à escola o que ela não pode resolver. A família é a estrutura mais responsável pela educação das crianças. A educação não funciona quando a família desiste. Uma família desistente é diferente da desestruturada. Família desistente é aquela que abandona o filho na escola. Deixa-o às 8 da manhã e vai buscá-lo às 21. Só não vai à meia-noite, porque não pode.

Chave do sucesso

Mas a chave do ensino está nos professores. Os pais não dirigem escolas, não dão aulas. Transferir para as autarquias as escolas não resolve o problema. Até pode piorar – na colocação de professores, por exemplo. Acredito na escola como organização. Mas, de facto, as pessoas não estão preparadas para responder como organização. Para isso, é necessário uma liderança forte; um corpo docente estável; um projecto que tenha a ver com a comunidade em que a escola está inserida.

Cultura televisiva

Há uma cultura que é inimiga da escola. É a cultura televisiva, daqueles que só falam de determinados assuntos, que estão convencidos de que sabem porque viram. É uma cultura superficial, ligeira, “soft”. É devastadora, em relação à capacidade de reflectir e assumir responsabilidades de construir a perspectiva colectiva que desejamos. A população de cultura televisiva acha que as escolas são coisas tenebrosas. Um inquérito revelou que os pais que têm filhos na escola acham que elas são lugares seguros. Quem não tem acha que são lugares perigosos.

A referência

O professor é uma referência. Não é um mero funcionário público. É uma referência profissional, cultural, moral, para o bem e para o mal. E tem de assumir esse papel de referência.

Queixa clássica

“Não temos condições”, é uma queixa clássica no sector público. Traduz uma desresponsabilização. É um alibi. A prática mostra o contrário. São os que têm menos condições que são capazes de fazer melhor, quando os professores têm um sentido profissional aguçado.

Informação e formação

Nas universidade é necessário pensar na formação base, a “general education”, transversal a todo o curso, os chamados “vertical domains”. As universidades podem dar muita informação, mas pouca formação. Isto tem de ser pensado.

Financiamento

Por muito que se queixem, as universidades vão ter que viver com menos financiamento. As universidades estão sempre a dizer que têm pouco dinheiro. É o contrário do que deviam dizer. Deviam estar preparadas para ir buscar dinheiro, que através de “fund raising” (procura de financiamento no sector privado, o qual, como contrapartida, pode ser o primeiro destinatário da investigação universitária), quer através de “payback” (dádivas dos antigos alunos), duas práticas típicas das universidades norte-americanas. As melhores entre estas são os exemplos a seguir.

Universidade

= gastar dinheiro?

As universidades têm de mostrar a relevância do que fazem. Na sociedade portuguesa há uma ideia muito vaga do que se faz na universidade. As pessoas estão convencidas de que a universidade é para gastar dinheiro. Os portugueses, normalmente, dizem mal da universidade que frequentaram. Os americanos, ficam muito reconhecidos em relação à sua universidade. Têm orgulho na escola.

Factores de sucesso

Os cinco factores de sucesso de uma organização como a universidade são: visão; missão, liderança, compromisso e motivação.

Avaliação e acreditação

As universidades europeias têm de ser avaliadas por organismos credíveis e proceder a uma acreditação cruzada. Por outro lado, devem combater a tendência corporativa, isto é, a perpetuação das pessoas num sistema fechado: entram aos 17 e saem aos 70 da mesma universidade.

Multi, pluri, inter…

A universidade tem dificuldade em lidar com problemas societais transversais, como as alterações climáticas ou o combate à pobreza. Onde é que a pobreza se pensa? Na Sociologia? Na Economia? Nas Engenharias? Na Alimentação? A universidade tem de se organizar para pensar nestes problemas. Tem de ter pluri, multi e interdisciplinaridade.

Potenciar as redes

Desde os anos 60 e 70 que existem redes entre universidades, essas com base em contactos pessoais. Hoje as redes têm de estar institucionalizadas e com objectivos definidos. Com redes, a Europa tem um po-tencial muito maior do que parece.

Campus de Aveiro

A Universidade de Aveiro soube crescer e, em termos arquitectónicos, é a grande referência da cidade. Este campus é o único verdadeiro campus universitário em Portugal.