Humildes na vitória…

1 – Uma vitória é sempre saborosa. Alcançar um acordo institucional é uma vitória saborosa para todos os Países da União, sem deixar de ter sabor especial para os seus obreiros, que foram muitos, incluindo a Presidência Portuguesa.

Qualquer vitória tem de ser humilde, para reconhecer todo o caminho que a gerou e permanecer aberta a sucessivos e mais elevados êxitos. Se ela esquece a sua génese, arrisca-se a ser derrota, por perversão dos sonhos dos seus progenitores. Se ela se enclausura narcisicamente nos seus resultados, poderá traduzir-se em fonte de exclusão exponencial, redundando, a breve prazo, em derrota.

No caso presente, é indispensável perscrutar se o processo de unidade, para onde a Europa quer caminhar, prossegue o sonho de Adenhauer, Schuman, De Gasperi. E se é mesmo a Europa que está a caminhar ou apenas as mentes ilustradas… Fica-nos a impressão de que, se o acordo institucional se alcançou, outras dimensões essenciais desse sonho estão fora da rota do Acordo de Lisboa. A Europa do Social, do Cultural, do Humanista, … parece estar muito distante, se não mesmo comprometida.

As originalidades nacionais, sempre criativas e enriquecedoras, terão o terreno livre para uma autêntica interculturalidade? Ou estamos já submetidos a uma super estrutura ideológica, formatadora de uma uniforme macrocultura? Cada matriz genuína diversificada da alma dos povos terá espaço para se afirmar e se apresentar como oferta enriquecedora aos outros membros da União?…

2 – É muito grato perceber que, em Portugal, não há restrições de assistência médica e tratamento hospitalar a imigrantes, ainda que indocumentados. Trata-se, no fundo, de preservar a possibilidade de cuidar a vida.

Mas aflige saber que, nesta Europa, há países onde médicos, que prestam estes cuidados aos imigrantes indocumentados – e têm de o fazer de forma clandestina -, são denunciados e penalizados por prestarem tal serviço humanitário. Afinal, que paradoxo de Europa, quando se empenha em enviar ajuda humanitária para cenários de guerra os de outras formas de catástrofe!…

Não estarão aqui a falhar aspectos fundamentais da construção de uma Europa das pessoas e não simplesmente das instituições? Para que servem as instituições, se não servem as pessoas? Quem são as “pedras vivas” da construção desta Europa?…

3 – Pelo que se diz, os milhões continuarão a entrar diariamente no País. O certo é que as perspectivas de aumentar a pobreza em Portugal são reais. A classe média tende a desaparecer; cerca de quarenta por cento da população caminha para o limiar da pobreza; no terreno, todos os dias se encontram novos dramas para subsistir…

Algo de fundamental está a falhar neste caminho “glorioso” para a união da Europa. Nem se trata apenas de várias velocidades na marcha do progresso. Trata-se de perversões na rota do progresso, permitindo que uns poucos continuem a distanciar-se de uma multidão cada vez maior de deserdados e excluídos.

Haverá razões para cantar vitória? A humildade de quem reconhece, com os seus êxitos, os seus fracassos é o caminho indispensável para a correcção de trajectos e metas!