1 – A Igreja Católica tem uma longa tradição de propor pessoas – mártires, pastores, fiéis leigos, mães de família, operários, religiosas e religiosos…- aos seus fiéis como modelo – regra, cânone – a seguir. E temos uma imensa multidão de figuras emblemáticas de resposta positiva e heróica à vocação universal à santidade.
Acabamos de ser presenteados com a beatificação de 498 mártires da vizinha Espanha, vítimas da perseguição à Igreja, durante a guerra civil. São inúmeros os casos, de todos os continentes, todos os dias assinalados e retirados ao anonimato, para que o seu exemplo brilhe mais fulgurante na Comunidade dos crentes e no seio das Nações.
2 – Apesar disso, e desde muito cedo alargando-se em círculos cada vez mais vastos, a Igreja foi gerando a tradição de celebrar Todos os Santos. Já nas primeiras décadas do séc. VIII existia um ofício próprio e se inseriu no cânone da Missa uma comemoração de Todos os Santos. É o Papa Gregório IV que, no séc. IX, fixa essa festa no 1.º de Novembro. Ela será a expressão mais visível da esperança cristã nessa meta feliz da nossa peregrinação neste Mundo. É a Festa de todos os que, dentre todos os povos, raças, línguas e nações, lavaram as suas túnicas e as branquearam no Sangue do Cordeiro, mesmo quando não O tendo conhecido, agiram, no seu coração, segundo os ditames da voz de Deus na sua vida – uma consciência recta.
3 – As palavras do P. António Vieira, proclamadas em Lisboa em 1643, podem ajudar-nos a compreender o alcance dessa Festa, que hoje celebramos e que se não pode confundir, de modo algum, com a celebração dos Fiéis Defuntos.
“A Festa mais universal e a festa mais particular, a festa mais de todos e a festa mais de cada um: é a que hoje celebra e nos manda celebrar a Igreja.
É a festa mais universal e mais de todos; porque, começando pela fonte de toda a Santidade que é Cristo, e pela Rainha de todos os Santos que é Virgem Santíssima, fazemos festa hoje a todas a Jerarquias dos Anjos, fazemos festa aos Patriarcas e aos Profetas, aos Apóstolos e aos Mártires, aos Confessores e às Virgens. E não há Bem-aventurado na Igreja triunfante, ou canonizado ou não canonizado, ou conhecido ou não conhecido na Militante, que não tenha a sua parte ou o seu todo neste grande dia.
E este mesmo dia tão universal ou tão de todos, é também o mais particular e mais próprio de cada um; porque hoje se celebram os Santos de cada Nação, os Santos de cada Reino, os Santos de cada Religião, os Santos de cada Cidade, os Santos de cada Família. Vede quão nosso e quão particular é este dia. Não só celebramos os santos desta nossa cidade, senão cada um de nós os santos da nossa família, os santos do nosso sangue.
(…) Fazemos pois hoje festa a nossos pais, a nossos avós, a nossos irmãos, e os que tendes filhos no Céu, ou inocentes ou adultos, fazeis também hoje festa a vossos filhos.
(…) Agora celebramos (…), e depois outros nos celebrarão a nós”.
De facto, a festa mais universal e de todos, a festa mais particular e de cada um!
