Olho de Lince As ruas da cidade não são propícias à relação de proximidade: encontramo-nos de quando em vez com alguém conhecido; mas é aí o espaço favorito para o crescimento do anonimato e da indiferença por quem se cruza connosco. Mais ainda neste tempo, em que toda a gente corre, sem reparar em ninguém.
Passei aquele adolescente com passo estugado, sem lhe dirigir qualquer saudação. Não o conhecia – foi o móbil da omissão. Mas para ele tal móbil não existia; saudou-me com rasgado “boa tarde”, que me fez pa-rar e retribuir a saudação com amabilidade.
Afinal, não nos conhecíamos mesmo. Mas, pela conversa, ele continuava a cultivar o hábito, incutido em família, de que a “salvação” a qualquer pessoa não custa nada. E pode produzir muito bons efeitos.
E produziu: o jovem foi à vida dele e eu fui à minha. Mas ficou-me a inquietação semeada. Se passo por alguém, é sempre gente com dignidade igual à minha. Conheça ou não conheça, a “salvação” não custa nada. E – quem sabe? – pode ser a oportunidade de abrir caminho a um diálogo oportuno e necessário, a um desabafo “salvador”…
Q. S.
