Companheira do quotidiano

Revisitar… a morte A celebração próxima do Dia dos Fiéis Defuntos leva-me a revisitar hoje a MORTE, realidade companheira do nosso quotidiano, que teimamos em ignorar, que afastamos do nosso horizonte, que sofremos, porque não podemos escapar, quando nos bate mais por perto.

Aproprio-me, adaptando-os melhor ao português, de alguns parágrafos do P. Heitor Sapattini, numa pequena obra “A Morte não existe mais!”, para propor aos leitores alguns momentos de reflexão neste mês de Novembro, tão vincadamente marcado pelo culto dos mortos.

“Muitas pessoas pensam que a morte sobrevirá no fim da vida aqui na terra; mas, na realidade, a morte caminha sempre dentro da própria vida. Não se trata de algo ou de uma realidade que aparecerá como alguém a quem nunca vimos antes. (…) Ela visita-nos a todo o instante: no vizinho que partiu, nas flores secas do jardim, nas folhas caídas no chão (…). Um sofrimento pessoal, a perda de alguém muito querido… um sonho não realizado ou que terminou logo no seu início. Tudo isso são pequenas mortes, que caminham connosco a todo o momento. Elas são carícias de Deus, que deseja tornar mais leve a hora da nossa inevitável partida deste mundo”…

Muitos de nós recusamos esta convivência quotidiana com a morte. Os mais velhos preferem ignorá-la, “divertir-se” para a desviar, “poupar” os mais novos a esta consciência incómoda. Reconhecermo-nos tais quais somos, ajudarmos os outros a reconhecê-lo também, à medida da sua idade e da sua compreensão, é um caminho educativo necessário.

“Quantos anos tens? Se respondes que tens cinquenta, sabe que esses anos nunca mais voltarão; foram morrendo à medida que os viveste”. Esta consciência é a melhor forma de estimular a uma vida da máxima qualidade, integral, como administração serena e esperançosa de um dom que nos foi conferido. Sabendo sempre que a nossa natureza humana tem esta vertente caduca.

“Ao criar o homem com argila, Deus plantou no seu íntimo a força da semente da ressurreição, para que, na morte, a pessoa humana pudesse nascer realmente. O pecado das origens interrompeu essa força; mas Jesus restaurou-a pela Sua ressurreição. (…) Jesus é a nossa Páscoa, a nossa passagem definitiva para Deus. Na morte nascemos para a vida eterna com Deus”…

Esta é a outra face da medalha, a que justifica a nossa caridade para com os mortos e a nossa abertura à sua caridade connosco, na comunhão dos santos. A nossa peregrinação neste Mundo é o tempo do desenvolvimento da nossa identidade autêntica – criaturas e filhos de Deus. A morte será esse segundo e definitivo nascimento: libertos da “placenta cósmica” do espaço e do tempo, por Jesus ressuscitado entramos na vida onde já não haverá mais dor, nem sofrimento, nem morte. Essa é a certeza que anima os cristãos!

Q.S.