“Amar é quando alguém conhece mais de nós do que nós próprios”. Foi assim que o psicólogo Eduardo Sá, frente a um grande auditório, no dia 9 de Novembro, no salão D. João Evangelista em Aveiro, definiu o sentimento que rege as relações humanas. “Família são pessoas que nos amam, que nos dão gestos de ternura várias vezes ao ano, sem qualquer pretexto.” Por isso, recomendou que os pais não se esqueçam de trocar mimos entre si e com os filhos, porque as relações morrem se não forem mimadas. E “à medida que nos vamos baldando uns para os outros”, as relações morrem lenta e naturalmente.
Respondendo a uma mãe, que pediu uns truques para lidar com o filho que faz birras para impor a sua presença, Eduardo Sá aconselhou: “Deixem as crianças fazerem birras. Se for preciso, dê-lhe uma palmada. E, se for preciso, grite, zangue-se.” As crianças testam os pais, querem vergá-los. O problema é quando os pais as deixam transformarem-se em pequenas ditadoras, porque não aprenderam a respeitar o não. “O não faz bem à saúde. Quando estamos a dizer não a alguém, dizemos sim à relação com essa pessoa, porque não desistimos de lhe mostrar regras e limites”. E traduziu os truques em três atitudes: coerência, constância e firmeza. As crianças educam-se com bons exemplos e não com bons conselhos.
Na adolescência, os filhos recusam falar com os pais. Ora, se estes desistem de cumprir o seu papel, agem como crianças mimadas, que amuam, porque alguém não quer falar com eles. Mas devem continuar a falar e a dar palpites: “Acho que estás triste, porque te zangaste com a tua namorada”.
Eduardo Sá afirmou que os pais devem ser a entidade reguladora dos filhos, independentemente da sua idade. Com dois, 14, 18 ou 40 e tal anos, precisamos de pais que nos indiquem caminhos. Todavia, os pais têm de ser humildes e aceitar que também erram. Por ensaio e erro, aprendem a conhecer os filhos. Os pais estão proibidos de ser os melhores amigos dos filhos. Isso seria uma despromoção, porque ser PAI é muito mais importante do que ser AMIGO.
Outras sugestões dadas pelo Psicólogo prendem-se com o jantar (sem televisão), o quarto das crianças (sem televisão e computador), o horário afixado na porta do frigorífico (com muito tempo para brincar, depois da escola), os trabalhos de casa (feitos pelos alunos e não pelos pais, antes do jantar e depois da brincadeira), os desenhos animados (campanha de vacinação ideal para proteger contra o medo).
Quanto à educação em Portugal, Eduardo Sá manifestou a sua apreensão em relação à escola a tempo inteiro, às aulas de 90 minutos intervaladas por apenas 10 minutos. Porque, afinal, a principal tarefa da criança é brincar. A Escola está a ser posta à frente de tudo, mas ela não é o mais importante.
Perto da quadra natalícia, Eduardo Sá sublinhou que o termo Presente!!! deveria ser acompanhado de três pontos de exclamação. Só damos presentes a quem está PRESENTE dentro de nós. Quando damos dinheiro, parece que dizemos: Não te conheço bem, por isso compra tu aquilo de que gostas. “Natal não é quando um homem quiser, mas sim sempre que alguém nos quer”, rematou, convidando: “Façam ser Natal várias vezes por dia e por ano!”
“Somos a melhor civilização
que alguma vez existiu para as crianças”
Correio do Vouga – Os pais de hoje são melhores ou piores do que os de ontem?
Eduardo Sá – São seguramente muito melhores. Inequivocamente muito melhores. São incomparavelmente mais presentes no crescimento das crianças. Estão mais atentos aos pequenos sinais. Apesar de termos a ideia de que as pessoas têm cada vez menos tempo, ainda assim têm uma qualidade de atenção que muitos dos nossos pais, infeliz e dramaticamente, não puderam ter. É muito bom que tenhamos a humildade de assumir que, de facto, somos a melhor civilização que alguma vez existiu para as crianças. E humildade porque, obviamente, os nossos filhos vão ser muito melhores do que nós.
Os pais são melhores. Mas é mais fácil ser pai/mãe hoje?
É mais difícil. Por uma questão simples: a função dos pais, que em gerações anteriores estava diluída por famílias alargadas, que de facto iam almofadando aquilo que os pais não tinham para dar, hoje tem de ser desempenhada no essencial pela família nuclear, pelo pai e pela mãe. Felizmente, a meu ver, os avós são cada vez mais pessoas ocupadas, pessoas com projectos de vida próprios, com uma carreira que se prolonga no tempo, são pessoas que de alguma forma se sentem mais úteis e mais produtivas. Isso, objectivamente, faz com que as responsabilidades dos pais estejam mais centradas sobre eles próprios, o que vai fazer com que inevitavelmente nós, nos próximos anos, assistamos a dois tipos de família: aquelas que se vão distinguindo cada vez mais pela qualidade dos cuidados positivos e aquelas que nos vão preocupando mais pelas omissões e pelos maus tratos. Vais haver uma grande fractura de famílias muito boas e famílias muito más.
As crianças de hoje são diferentes de outras gerações?
São. São crianças por mais tempo, que é o maior privilégio do mundo. As crianças, há uma ou duas gerações, deixavam de o ser aos 10 anos. Começavam a trabalhar muito precocemente. Hoje são crianças até mais tarde. Formalmente vão até aos 18, na prática são muito para além dos 18 anos. Temos este enorme privilégio de dar muito mais tempo à infância. Isto vai-se traduzir em melhores adultos e melhores famílias.
Como é “educar para a vida”[título da conversa em Aveiro]?
O título não é meu. É da organização deste encontro. As pessoas têm uma clarividência sobre as coisas muito superior àquilo que às vezes deixam entender. Há ondas no ar em que muitas vezes nos deixamos entrar e que são absurdas. É muito importante termos noção da importância da família. É muito importante perceber o benefício que é a escola. Acho que a escola tem de fechar para balanço e abrir com outra gerência. É bom que tenhamos a noção que educar para a vida não pressupõe que as crianças entrem com muito boas notas na universidade. É muito mais do que isso. Significa que elas sejam excelentes pessoas, muito mais do que bons técnicos. Algumas pessoas ainda não perceberam isto.
“Abrir a escola com outra gerência” é uma crítica ao sistema de ensino actual…
Há uma tendência que leva a pressupor que temos que pôr a tónica na formação de técnicos, temos que dar mais tempos de escola, temos de criar uma atmosfera sisuda na relação das pessoas com a escola. Estas ideias, que estão a ser abandonadas nos países desenvolvidos, está agora a chegar a chegar aqui, numa espécie de choque educativo. Não acho que seja por aí que nós transformamos o mundo.
J.P.F.
