D. António Francisco, a propósito da visita Ad Limina (3 a 12 de Novembro) Correio do Vouga – A Imprensa transmitiu a ideia de que Bento XVI se manifestou desagradado com a realidade da Igreja portuguesa. Foi essa a impressão com que ficou?
D. ANTÓNIO FRANCISCO DOS SANTOS – Compreendo que a comunicação social, numa leitura marcada pelo imediatismo, tenha entendido a mensagem do Santo Padre como se fosse uma nota de desagrado face à Igreja em Portugal.
Mas a realidade vivida em Roma e a mensagem recebida do Santo Padre revelam-nos outros sentimentos, apontam-nos outros caminhos, relançam-nos noutros desafios e exigem-nos sobretudo respostas noutros horizontes.
A visita Ad Limina proporcionou aos bispos portugueses tempo de oração, de partilha fraterna entre todos, de diálogo com as Congregações Romanas e sobretudo esses momentos únicos que são o encontro pessoal de cada bispo e o encontro de todos os bispos com o Santo Padre.
No diálogo pessoal que tive com o Santo Padre e nas orientações dele recebidas, senti o acolhimento afável, a solicitude fraterna e o estímulo confiante de Bento XVI. É de esperança esta hora que vivemos em Igreja.
O Santo Padre dialoga connosco, escuta o que lhe dizemos e perscruta atentamente os caminhos percorridos e os projectos pastorais acalentados. Deste encontro, brota uma imensa alegria e emerge um incontido ânimo de viver e trabalhar em comunhão com o sucessor de Pedro.
Por que motivo haveria o Santo Padre de manifestar desagrado em relação à Igreja de Portugal, se ele faz parte desta Igreja que lhe foi testemunhar unidade, fidelidade e comunhão?
O Papa diz que é preciso mudar o estilo e a organização da comunidade eclesial portuguesa e a mentalidade dos seus membros, para estar ao ritmo do Vaticano II.
O Santo Padre conhece a Igreja de Portugal e partilha connosco as nossas alegrias, projectos e provações.
A sua mensagem é uma palavra de ordem do Pastor que nos conhece, nos ama e cuida de nós segundo a bela expressão evangélica da parábola do Bom Pastor.
Todos sentimos que é urgente a mudança e que é imperiosa a renovação. É nossa missão viver e conduzir o Povo de Deus segundo os critérios do Evangelho e ao ritmo do Concílio Vaticano II.
Há um longo caminho a percorrer. E esse caminho é necessariamente um caminho de conversão pastoral e de comunhão eclesial. Só esse caminho tem futuro. A Igreja deve caminhar por aí, para ser sinal de santificação e sacramento de salvação para o mundo – utilizando uma linguagem que o mundo compreenda e dando sempre um teste-munho de santidade permanente, que é aquilo de que o mundo mais precisa. Mesmo que a Igreja deixe de ser multidão, não pode deixar de ser oásis de oração e de espirituali-dade, onde se sinta a presença de Deus e se toque de perto a sua santidade.
Mesmo que a Igreja perca a influência social de outros tempos, deve continuar a ser âncora onde se sustente a alavanca de um mundo melhor e onde os pobres e esquecidos do mundo encontrem pão, casa, segurança, paz e sentido para a vida.
A mobilidade humana e a mudança civilizacional transformaram o nosso país. A realidade rural diluiu-se e a vida das aldeias configura-se hoje segundo os paradigmas urbanos. Impõe-se uma atenção pastoral lúcida perante esta realidade.
Todos desejamos, de acordo com as orientações conciliares, uma distribuição equitativa do clero que tenha a ousadia da generosidade e todos necessitamos de uma repartição fraterna de recursos humanos e de partilha de bens a vários níveis entre as igrejas diocesanas.
A Universidade Católica e as Escolas de Ciências Religiosas espalhadas pelo País, podem ser um eixo providencial a mobilizar a Igreja e a sociedade portuguesa em ordem à mudança que o Papa nos pede.
Gostaria, finalmente, que a Igreja em Portugal fosse capaz de lançar uma missão pastoral para o País, com um plano pastoral único, a dinamizar de forma coordenada e abrangente e com espírito missionário, todas as Dioceses de Portugal.
O Sr. Bispo apresentou um relatório a Bento XVI sobre a Diocese de Aveiro. Podemos conhecer as grandes linhas desse relatório?
O relatório da nossa diocese procurou ser uma radiografia pastoral da Igreja que somos, em números, organização, estruturas, percursos e projectos pastorais. Há uma abor-dagem minuciosa da realidade do clero, da vida consagrada e dos leigos. Refere os vários sectores, vigararias e secretariados de acção pastoral. Integra também o relatório uma referência à História, aos bens culturais e ao património da Diocese, assim como aos serviços da Cúria Diocesana, do Seminário, do ISCRA (Instituto Superior de Ciências Religiosas), do CUFC (Centro Universitário, Fé e Cultura), da Casa Diocesana e do CAP (Centro de Acção Pastoral). Faz finalmente uma avaliação do percurso pastoral da Igreja Diocesana e dos seus planos pastorais desde 1999, data da visita anterior, a 2006; e lançam-se algumas perspectivas pastorais para o futuro. Este é certamente um dos capítulos mais interessantes e interpelativos, onde se anunciam já caminhos de mudança e renovação que vão no sentido do que o Santo Padre nos pede. É urgente uma pastoral de proximidade que nos envie em missão e nos conduza ao encontro das pessoas num diálogo permanente entre a Igreja e o Mundo. E essa é uma missão de todos – Clero, Religiosos e Leigos.
O que lhe disse Bento VXI e que os seus diocesanos devem conhecer?
Os assuntos mais sublinhados pelo Santo Padre nos encontros pessoais que teve comigo e com o Sr. D. António Marcelino foram a formação do Clero, a transmissão da Fé às crianças, aos jovens e ao mundo da Universidade e da Cultura, a reduzida prática dominical, a evangelização e a santificação da família numa sociedade secularizada, o crescimento demográfico e o desenvolvimento económico da área diocesana por um lado e o drama da pobreza e da precariedade do trabalho por outro.
Naquele encontro com o Santo Padre, senti mais explícita a presença de toda a Diocese comigo ali em Roma, desde o seu Bispo Emérito D. Manuel de Almeida Trindade, de quem falei ao Santo Padre, a todos os membros da Igreja Diocesana. A Bênção que pedi ao Santo Padre e que dele recebi pertence a toda a Diocese. Sou portador dessa bênção e da mensagem que a todos nos dirigiu e que exige de cada um de nós uma resposta coerente e consequente.
Deus não falta e é evidente entre nós o testemunho de grande generosidade, por vezes heróica, e de permanente compromisso apostólico de sacerdotes, diáconos, religiosos, consagrados e leigos da nossa Diocese. É nesta unidade e comunhão eclesiais que cresce o futuro da Igreja Diocesana.
