“A bagagem que trouxemos é muito mais pesda do que a que levamos”

Eu estive lá – Testemunho de um mês nas Missões Testemunho de Nídia Coutinho, Marisa Vidal e Vânia Conde, que em Agosto estiveram na Missão de Cubal, perto de Benguela, Angola. Entre outros trabalhos, as jovens da Diocese de Aveiro colaboraram numa escola orientada pelas as Irmãs Teresianas.

As palavras nem sempre são fiéis ao que os olhos vêem e ao que o coração sente… Vivemos todo um mês de variadíssimas experiências muito ricas, que vão desde a forma calorosa como nos receberam, à nossa visão e integração na vida e cultura do povo angolano.

Ao chegarmos ao Cubal, encontramos um óptimo trabalho desenvolvido pelas irmãs Teresianas, num bairro social, onde existe um hospital, uma escola, um centro anti-tuberculose, um centro de desnutrição, uma carpintaria, uma oficina mecânica…Como o tempo era curto, focámo-nos essencialmente num trabalho pedagógico, quer na escola, quer no reforço escolar, mas também demos catequese e ajudá-mos num ou noutro trabalho que ia surgindo.

Num espaço de tempo tão curto, não é fácil dizer que obtivemos resultados – se é que os tínhamos que obter. Não conseguimos fazer tanto quanto gostaríamos, naturalmente, mas tentamos sempre que, em cada gesto nosso, em cada mensagem que transmitimos, estivessem implícitos valores como o do trabalho e o do estudo… Já o D. António Francisco dizia antes de partirmos que nos preocupássemos mais em ser do que em fazer.

No início, a reacção das crianças não era muito próxima. Não se aproximavam muito, talvez por serem crianças mais do interior. Mas poucos dias foram precisos para que se comportassem como se nos conhecessem desde sempre. Quando passávamos, ouvíamos muitas vezes chamarem por nós…

Em África, toda a ajuda é pouca, tendo em conta as insuficiências que se verificam. Uma das que mais nos impressionou, por estarmos mais envolvidas com a pedagogia, foi a falta de método de trabalho dos professores. A forma como se ensina às crianças as coisas mais básicas é um bocado diferente, talvez, até, um pouco disfuncional… Mas é preciso ter sempre em atenção que estamos a falar de uma realidade diferente daquela a que estamos acostumadas. As crianças têm pouco tempo de aulas, por isso as Irmãs proporcionam o reforço escolar. Existem três grupos de alunos, os que têm aulas de manhã, os que têm à tarde e os que têm à noite. Enquanto uns estão na escola, os outros, se quiserem, vão ao reforço escolar, que é no bairro social.

“Filhos da Guerra”

É natural que num mês não se consiga ajudar tanto quanto é preciso. Tomámos conhecimento de outra realidade, ao mesmo tempo que nos enriquecemos interiormente. A bagagem que trouxemos é muito mais pesada do que a que levámos. E essa bagagem não se resume às histórias que ouvimos, às pessoas extraordinárias que trouxemos no coração, mas também aos valores que reaprendemos. Desvalorizar algumas coisas que até então achávamos serem importantes – foi uma das lições de vida que aprendemos.

Na missão onde estávamos, há muitas crianças órfãs. São os “filhos da guerra”, como o Bernardo Kalan-gingi (“Kalangingi” significa “pequena formiga”, em umbundu). No tempo da guerra, era o Bernardo bebé, dispararam contra a mãe. Ele, que ia nas costas dela, também foi atingido. A bala que matou a mãe atingiu-lhe o braço. As Irmãs Teresianas conseguiram reconstruir-lhe o braço.

Aprendemos que não é preciso muito para se ser feliz… Reaprendemos o valor que têm umas mãos, um olhar, um sorriso, um abraço, uma palavra! Reaprendemos que estar disponível é muito mais que ter tempo, e que para se estar disponível nem é preciso ter muito tempo…

Arriscamos mesmo a dizer que cruzámos com pessoas muito felizes, apesar das dificuldades. Muitas delas tinham histórias de vida duma crueldade extrema, sobretudo relacionadas com a guerra. Mas, ainda assim, são pessoas com uma fé inabalável. Mesmo com algumas adversidades, acolheram-nos de braços abertos e com um sorriso encantador!

Casal de agricultores

precisa-se!

O peso dessa bagagem é também o “peso” do que implica um regresso. Referimo-nos aos projectos que agora há que desenvolver. Mesmo estando longe fisicamente, esta missão não chegou ao fim.

No nosso caso, ficámos com um projecto que consiste em arranjar um casal de agricultores, ou que perceba de agricultura, que possa disponibilizar algum do seu tempo para formar as pessoas do Cubal nesta área, transmitir-lhes conhecimentos e técnicas, para que possam tornar a terra, além de fonte de alimentação, um meio sustentável… Ingredientes para isso não faltam, porque o solo deles já é abençoado. É muito melhor que o nosso. Os angolanos só precisam de aprender qual a melhor forma de o trabalhar!

Não é só lá que poderemos concretizar a nossa missão pessoal e dar o nosso contributo em prol do melhoramento da qualidade de vida na terra… Por vezes, basta olharmos à nossa volta, estarmos atentos e querermos ver, pois “não há maior cego do que aquele que não quer ver”!

Temos de agitar algumas consciências, a começar por nós, para o serviço aos outros, pois é dando que se recebe e, como disse Jesus: «Há mais alegria em dar do que em receber!»