Após mais de três décadas de “intenções, promessas e indecisões”, foi inaugurada a ligação entre a Linha do Norte e o Porto de Aveiro. Demorou 30 meses a construir e custou 72,7 milhões de euros
O primeiro-ministro José Sócrates inaugurou no sábado, 27 de Março, a ligação ferroviária da Linha do Norte (terminal de Cacia) ao Porto de Aveio. Fê-lo chegando ao Terminal Norte numa composição de passageiros, acompanhado de uma extensa comitiva que incluía o ministro actual (António Mendonça) e o anterior (Mário Lino) das Obras Públicas, secretários e ex-secretários de Estado (destaque para Ana Paula Vitorino, que foi decisiva para o avanço das obras), autarcas, o Bispo de Aveiro e diversos responsáveis de instituições.
Na intervenção pública, José Sócrates destacou que houve “30 anos de intenções, promessas e indecisões e 30 meses de execução; 30 anos a sonhar e 30 meses a concretizar” a ligação por caminho-de-ferro. Realçou a importância de ter os cinco principais portos portugueses ligados à ferrovia (Leixões, Lisboa, Setúbal, Sines e Aveiro), para “maior competitividade”, “para oferecer às empresas melhores condições”. José Luís Cacho, presidente da APA (Administração do Porto de Aveiro) considerou a inauguração desta obra desejada desde 1974 como o “terceiro dia da Criação”, reportando-se a uma carta dirigida ao rei, há 200 anos, que apontava a abertura da barra como “o segundo dia da Criação”. Lembrou que nos últimos anos foram investidos 280 milhões de euros no Porto de Aveiro e disse estar a faltar o prolongamento do molhe norte da Barra.
Exigências
do presidente da CIRA
Ribau Esteves, presidente da Câmara Municipal de Ílhavo e da CIRA (Comunidade Intermunicipal da Região de Aveiro), aproveitou a oportunidade para pedir isenção de portagens no troço da A25 que liga Aveiro às praias no concelho de Ílhavo, celeridade no Polis da Ria (previstos 97 milhões de euros em investimentos), reperfilamento da Barra do Porto de Aveiro, e atenção para o projecto da Marina da Barra que, renovado, vai ser apresentando “às autoridades competentes” dentro de semanas. Ao primeiro-ministro, reportando-se ao ambiente de “telenovela venezuelana” da política nacional, deixou um conselho: “TSST: trabalhe, sorria e saia da telenovela (…). Utilize as suas energias para aquilo que é preciso. Ande para a frente com a velocidade da lebre e a tenacidade da tartaruga”. Sócrates responderia que se não sorri tanto é porque o mundo a isso não convida, mas a inauguração deixava-o satisfeito. “Raros são os governos que lançam a obra e ainda estão em funções quando fica concluída. Eu tenho essa sorte”, disse. E acrescentou que há um motivo para sorrir, quando a recuperação da actividade portuária dá sinais de retoma: “O nosso esforço valeu a pena. Hoje o país está melhor do que ontem”.
Jorge Pires Ferreira
Números da obra
72,7
milhões de euros que a obra custou, incluindo a Plataforma Multimodal de Cacia e os sistemas de sinalização e telecomunicações que servem as duas infra-estruturas.
1500
número de trabalhadores envolvidos na construção, distribuídos por 200 empresas
9
Extensão da linha, em quilómetros. É em via única, não electrificada, e permite a circulação de composições de mercadorias com carga máxima de 25 toneladas por eixo e velocidade máxima de 60 km/h. A via termina no Porto de Aveiro, num feixe distribuidor de cinco linhas (ligações aos terminais portuários) que está preparado para receber mais quatro linhas.
10
Já circulam três composições por dia. Espera-se que a breve prazo circulem cinquenta por semana, ou seja, 10 em média por dia útil da semana. Em velocidade de cruzeiro, serão transportadas 600 mil toneladas por ano, cerca de 20% do movimento do Porto de Aveiro.
