Questões Sociais A propósito da visita do Episcopado Português «ad limina» falou-se, uma vez mais, da provável publicação de uma «nova encíclica social». E, como é natural, não falta quem entenda existirem hoje novos problemas sociais justificativos da encíclica. E também há quem entenda já existirem orientações doutrinárias bem precisas para a solução desses problemas; a própria encíclica «Populorum Progressio», publicada há quarenta anos, aborda os grandes questões do desenvolvimento, da globalização, das migrações, das desigualdades sociais, da violência e outras.
Qualquer que seja a posição que tomemos acerca da necessidade de nova encíclica, impõe-se que nos examinemos sobre a maneira como temos aproveitado o vasto património doutrinário já existente; tal exame até constituiria a melhor preparação para a nova encíclica.Justifica-se, especialmente, interrogarmo-nos: como vem sendo ensinada e reflectida a doutrina social da Igreja (DSI) nas catequeses (de crianças, de jovens e de adultos), nas homilias, na Universidade Católica e noutros centros de formação, nas paróquias, nos diferentes movimentos e obras, nas homilias? As paróquias, movimentos e obras levam a efeito encontros regulares destinados à prática do «ver», «julgar» e «agir»: «ver» (analisar) as realidades sociais; «julgar» (apreciar) essas mesmas realidades à luz da DSI; e, com base em compromissos assumidos nessas reuniões, «agir» coerententemente na esfera pessoal e em âmbitos mais alargados, chegando até à proposta de medidas políticas.
De acordo com a informação disponível, pode afirmar-se que poucos são os casos em que se verificam estas actuações. Deste modo, corremos o risco de tratar a «nova encíclica social», à semelhança das anteriores, como evento sócio-religioso importante, que será mais ou menos esquecido depois de algumas divulgações, conferências e iniciativas semelhantes; provavelmente, os destinatárias serão as mesmas pessoas de sempre, as quais, na melhor das hipóteses, funcionam à maneira de «pregadores» ou de «mini-papas». Não raro, a proclamação do valor das encíclicas sociais funciona como álibi para nos dispensarmos do nosso contributo específico.
Com uma ingenuidade impressionante, persistimos em dois graves contra-testemunhos, há muitos anos, sem perspecitvas de conversão à vista: o contra-testemunho da hostilidade interna; e o da irresponsabilidade externa. O primeiro traduz-se no facto de não termos introduzido a prática do diálogo social, no interior da Igreja, entre posições divergentes; por exemplo entre sindicalistas e empresários, ou entre esquerda e direita: Tudo se passa como se não existisse uma base comum de natureza evangélica, e como se não existisse uma finalidade salvífica, também comum.
O outro contra-testemunho respeita à irresponsabilidade com que nos resignamos perante a injustiça e com que disparamos nossas contestaçoes emotivas, sem preparar-mos nem apresentarmos propostas fundamentadas.
