Questões Sociais Acha-se muito difundida a prática de distribuição de «cabazes de Natal» às famílias mais necessitadas. Muito difundida se encontra também a crítica a esta prática; critica-se o facto de ela só existir no Natal e de não actuar nas causas dos problemas sociais, mantendo os pobres na dependência de dádivas assistenciais. As críticas mais virulentas chegam até ao ponto de considerar que as práticas assistenciais, exemplificadas nos «cabazes de Natal», servem exactamente para manter a injustiça social, preservando os interesses das classes dominantes que, na melhor das hipóteses, dão por «esmola» o que é devido por justiça.
Estas críticas são, geralmente, incorrectas. Na verdade, a prestação de ajudas às pessoas mais necessitadas verifica-se ao longo de todo o ano; as conferências vicentinas, os grupos Cáritas e tantos outros são exemplos eloquentes de tal esforço permanente, que os bancos alimentares contra a fome vieram reforçar, e até qualificar. É também notável o trabalho realizado para que os pobres deixem de o ser, e ultrapassem as situações de dependência; os mesmos grupos de voluntários, os centros sociais paroquiais, as misericórdias e inúmeras outras instituições ilustram diariamente o labor destinado à superação e à prevenção daquelas situações.
Ao mesmo tempo que devemos salientar este enorme trabalho social, impõe-se-nos reconhecer que ele ainda se encontra num estádio correspondente à acção assistencial da Idade Média. Esta acção foi notável, sem dúvida, mas não é suficiente para os dias de hoje, sob pena de, ao contrário dos nossos antepassados desse tempo, não estarmos à altura das responsabilidades actuais. Em termos de objectivos, impõe-se completar a assistência social com a promoção e com o desenvolvimento: a promoção, que já se vem realizando em par-te, consiste basicamente no processo de passagem da dependência para a autonomia, através do trabalho ou de prestações sociais regulares; o desenvolvimento consiste, simplificadamente, na criação de condições para se evitarem situações de dependência e para se superarem as que existem.
Em termos de actividades recomendáveis, também se podem assinalar-se três, fundamentalmente: a análise, a cooperação e a intervenção: a análise consiste na apreciação dos problemas sociais existentes em cada localidade, e na definição de linhas orientadoras para as respectivas soluções; a cooperação é o relacionamento com as pessoas necessitadas, traduzido na prestação de apoios e no respeito pela iniciativa de cada uma na procura das soluções; a intervenção respeita à actuação junto de outras entidades públicas ou privadas, sempre que tal seja indispensável.
Parecendo simples conjugar a acção assistencial com as de promoção e desenvolvimento, não abundam as respectivas práticas. Nota-se mesmo uma certa apatia face aos imperativos de promoção e desenvolvimento. Até se esquece que, há pelo menos quarenta anos através da encíclica «Populorum Progressio», foram apontadas orientações bastante claras nesta direcção.
