Que todos sejam um (II)

Revisitar… O Concílio Retomamos algumas reflexões sobre a relação entre as Igrejas cristãs, a partir dos documentos do Concílio Vaticano II.

“Nesta una e única Igreja de Deus surgiram, logo nos primeiros anos, algumas divisões que o apóstolo censura severamente como condenáveis. Posteriormente apareceram divisões ainda maiores e grandes comu-nidades separaram-se da Igreja Católica havendo culpas de uma e outra parte”. – UR 3.

As divisões são um facto, desde o início. Recordemos que, mesmo nos tempos apostólicos, uns se reclamavam de Pedro outros de Paulo… Circunstâncias culturais, políticas, como também doutrinais, tornaram-se facilmente pomo de discórdia. Importa, porém, notar que, as mais das vezes, as culpas se repartem pelas partes que se separam.

E esta consciência nunca pode deixar de estar presente, se se pretendem reatar caminhos de diálogo e aproximação. Urge ler os factores de divisão com plena isenção e no enquadramento das circunstâncias históricas específicas em que aconteceram, não para se lançarem mutuamente as culpas, mas para se assumirem com coragem os erros e mais corajosamente ainda se encetarem os caminhos de correcção desses mesmos erros.

“Não se podem, no entanto, acusar do pecado de divisão os que nasceram numa comunidade e aí são instruídos na fé de Cristo. A Igreja Católica abraça todos esses com fraterna reverência e amor. De facto, todos os que crêem em Cristo e foram devidamente baptizados estão numa certa comunhão, embora imperfeita, com a Igreja Católica. (…) Mas, justificados no baptismo pela fé, estão incorporados em Cristo, com direito se honram com o nome de cristãos e os filhos da Igreja Católica reconhecem-nos, com razão, irmãos no Senhor”. – UR 3.

Estas palavras são um convite a superar o hábito de ver as outras confissões cristãs num patamar inferior, para as considerarmos diferentes mas irmãs, com caminho a fazer, mas merecedoras do nosso respeito, acolhimento e, sobretudo, do nosso esforço de aplanarmos o que, do nosso lado, foi factor de divisão e subsista ainda como escolho a impedir o reencontro.

Reconhecer os elementos fundamentais do caminho salvífico e a medida em que eles são visíveis e vividos em cada confissão é indispensável. “Além disso, de entre o conjunto de elementos ou bens com que a própria Igreja se edifica e vivifica, há alguns, e às vezes muito e muito importantes, que podem existir fora do âmbito da Igreja Católica: a palavra de Deus escrita, a vida da graça, a fé, esperança e caridade e outros dons, visíveis ou invisíveis, do Espírito Santo; tudo quanto provém de Cristo e a Ele conduz pertence, de direito, à Igreja única de Cristo”. – UR 3.

É necessária a prudência das afirmações que confinem a única Igreja de Jesus Cristo às “fronteiras materiais” da Igreja Católica. O Concílio é peremptório em afirmar que, por muitos modos da vida das Igrejas irmãs, passa o mistério da Salvação.

Q.S.