Pe J. FRANCLIM PACHECO
Primeira parte de uma abordagem da história da separação entre católicos e ortodoxos
O facto de na nossa diocese de Aveiro a Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos ter o seu ponto alto na celebração ecuménica na Igreja Ortodoxa é ocasião de percorrermos um pouco a história dos encontros e desencontros, das razões sem razão, com predomínio dos factores não teológicos que estabeleceram um fosso entre a igreja latina do ocidente, a que chamamos «católica», e a igreja bizantina grega do oriente que é designada com o termo «ortodoxa».
O centro da cristandade latina era Roma; o da cristandade grega era a nova capital do império romano, Constantinopla.
Os cristãos do ocidente e do oriente tinham a mesma cristologia calcedónia: por isso, tanto maior é o escândalo desta divisão. Esta deveu-se a um acentuar contínuo, algumas vezes voluntário, dum problema moral que se tornou pouco a pouco numa fractura aceite por uma e outra parte. Em seguida, uma vez consumada a fractura, foram dadas justificações em volumosos tratados de teologia.
Mas o problema, na realidade, surgiu nos primeiros quatro séculos do império cristão, por causa duma situação cultural e dum acontecimento de ordem política.
Origem da divisão: cultura e política
A questão da língua
Os cristãos conheciam o Antigo Testamento na sua tradução grega. O Novo Testamento foi escrito em grego e foi conhecido, a princípio, apenas nesta língua. O grego tinha sido a primeira língua da evangelização do ocidente; no séc. II, os cristãos de Roma e do vale do Ródão falavam em grego. O primeiro grande teólogo da Gália, Ireneu de Leão, veio da Ásia Menor e era de língua grega. As suas obras foram pensadas e escritas nessa língua. Foi somente nos séculos seguintes que a Igreja do ocidente se latinizou.
Fora da Terra Santa, o grego foi, pois, a língua primária do cristianismo. Ora, era também a língua da cultura, da filosofia e da ciência. Para os cristãos do mundo mediterrânico oriental – aquilo que nós hoje chamamos os Balcãs, a Ásia Menor, as grandes cidades da Síria e do Egipto – o grego era, portanto, a língua da sua fé e da sua cultura. Eles achavam que era completamente inútil aprender uma língua secundária como era o latim.
Roma ou Constantinopla:
qual o centro da cristandade?
Para reforçar o predomínio cultural do grego contribuiu o factor político. No fim do séc. III, o imperador romano tinha abandonado Roma, a capital, demasiado longínqua das províncias orientais; além disso, na região romana reinava a malária. No séc. IV, o imperador tinha-se estabelecido junto do estreito do Bósforo, em Bizâncio, que se tornou Constantinopla (actual Istambul).
Pode-se dizer que os imperadores romanos transferiram o império romano para o mundo grego e, naturalmente, os imperadores esqueceram o latim. Bem cedo o império romano do oriente se tornou grego na língua e na cultura, durante dez séculos, até à metade do séc. XV, enquanto os bárbaros atingiam o mundo ocidental de língua latina.
Patriarca de Constantinopla
ou Papa de Roma?
Do ponto de vista cultural, a Igreja dos sécs. IV, V, VI e VII tinha uma tendência para aparecer antes de mais como grega. Os primeiros concílios expressaram-se em grego e reuniram-se sob a autoridade imperial. Os patriarcas de língua grega da nova capital, Constantinopla, colocavam-se como rivais não só dos patriarcas de Jerusalém, Antioquia e Alexandria, mas também dos papas da antiga capital, Roma, cujo prestígio tinha diminuído quando o poder político se retirou da sua cidade.
O apoio do imperador ao Patriarca
de Constantinopla
Numa palavra, os patriarcas de Constantinopla consideraram-se como personalidades essenciais da Igreja no seio do império. E os imperadores apoiavam-nos, visto que os patriarcas da capital podiam receber, ajudar, prolongar ou aumentar a influência imperial (e, se se opunham, os imperadores podiam mais facilmente destituí-los).
A política e a cultura contribuíam, pois, para que o Papa perdesse o prestígio. Tinha-se cavado um fosso psicológico, desde a instalação dos imperadores em Constantinopla, entre a cristandade de língua latina e a de língua grega, que se habituaram a ignorar-se reciprocamente.
A diferença de língua
como factor de distanciamento
Pouco a pouco, no ocidente começava a desaparecer o conhecimento do grego; era penoso seguir a evolução teológica da Igreja do oriente. No princípio do séc. IV, Ambrósio de Milão, um Padre da Igreja, sabia bem o grego; no fim do século IV, Agostinho já o sabia menos.
Mas quando, no séc. V, chegou uma carta da Igreja de Constantinopla, importante pelo seu conteúdo teológico – naturalmente em grego –, ficou vários meses sem resposta porque, em Roma, não havia ninguém que fosse capaz de a traduzir. E, vice-versa, se os latinos mandavam uma carta para o oriente na sua língua, não se lhe prestava atenção.
Assistia-se a um distanciamento, duma e outra parte, a um certo menosprezo recíproco, por razões ao mesmo tempo culturais, políticas e psicológicas. Nunca se insistirá bastante sobre o papel que teve também o orgulho nas divisões dos cristãos: durante séculos não houve relações profundas entre os cristãos do oriente e os do ocidente. Roma e a cristandade latina, como também Constantinopla e a cristandade bizantina, cada uma convencida da sua dignidade, não tinham entre si relações formais. Não havia conflito entre estas duas capitais cristãs. A separação que se preparava não era cristológica mas psicológica.
Continua na próxima semana
