Perspectivas de um novo ano em Igreja

Não pode ficar em banho-maria o apelo feito por Bento XVI aos bispos portugueses, nem se pode pensar que já se disse tudo quanto havia a dizer. Mais do que dizer as coisas em muitos tons, parece que o importante é dar respostas de vida a apelos concretos, então feitos ou sugeridos.

Sei que isso mesmo está no espírito dos mais responsáveis. Se atentos, também de há muito se aperceberam que a bola de neve roda e não vai parar mais. Os leigos sentiram-se animados a prosseguir. Chegou até eles, de novo, a palavra conciliar, por muitos já esquecida, que os repôs no lugar próprio, com um estatuto de direito, que não de favor.

E há que insistir no sentido da sua vocação de cristãos no mundo, para respeitar a sua autonomia, os apoiar nas tarefas mais urgentes da sociedade, que recaem diariamente sobre os seus ombros, os alertar para que tomem consciência de que o seu primeiro e primordial espaço de apostolado não é o templo, mas a vida familiar, profissional e social. Aí têm de estar e organizados. Há que reler o catálogo dos seus direitos e deveres na Igreja, para não o esquecerem nem minimizarem e, também, para ver o que implica, por parte da hierarquia, cada um destes direitos – deveres dos leigos cristãos.

A mensagem evangélica, que para um crente é tempero necessário das relações e actividades humanas e sociais, não permite esquecer o compromisso dos leigos, e estes devem ser exigentes para quem lhes proporciona, de modo acessível, a solidez da doutrina e o estímulo e conforto nos desafios que enfrentam. Deste modo, com os leigos, todos reconhecerão que a maioria dos problemas de hoje não tem apenas uma solução e que os valores sociais não são unívocos.

O espaço eclesial é, normalmente, pouco crítico, e sê-lo-á ainda menos se quem nele actua conscientemente se sentir mais vigiado e temido, que reconhecido e estimulado.

A Igreja não é varandim cómodo para olhar e julgar os que andam na rua. Ela própria tem de andar na rua, não de cruz alçada ou em cortejo de honras, mas para sentir, como próprias, as alegrias e as dores de todos, as injustiças, como desafios, a mentira, como acicate, os problemas que impedem as pessoas de viver com dignidade, como seus problemas, o compromisso dos que aí lutam, como a sua frente de luta permanente.

Em Abril, a Conferência Episcopal será sujeita a um processo eleitoral normal que, de imediato, obriga a presidência a entrar em acção. Parece óbvio que os apelos do Papa devem ocupar lugar eminente nas suas preocupações. Cada bispo na sua diocese tem, neste campo, responsabilidades pessoais próprias. Mas o testemunho de uma acção comum coordenada é condição para que a Igreja seja sinal de compromisso evangélico, frente a problemas importantes, que se deparam com as pessoas da Igreja divididas; serão, em muitos casos, problemas que se multiplicam.

Na Igreja não há honra que não seja serviço e, se algumas há ainda que o não são, estão a mais e desvirtuam a vida e acção da Igreja, tal como Cristo quis e no-las deixou.

Ao longo do tempo isso foi acontecendo e, hoje, não falta quem pense que, sem ornatos exteriores perfeitamente dispensáveis, a Igreja tem menos brilho.

Um ano de renovação pastoral, de linha e cariz conciliar, de intenso esforço na construção de caminhos de comunhão, é necessariamente um ano de purificação e de procura do essencial. Há que acabar, de vez, com acções inconsequentes e com o supérfluo incómodo, sempre perturbador pela escala de valores que introduz e que nada tem de evangélico.

A evangelização, a iniciação cristã, vêm dizer que só Cristo é importante. As pessoas são-no porque delas Cristo fez o seu caminho necessário. E lhes deu a importância máxima. Precisará a Igreja de mais para se renovar e ser fiel à verdade em que acredita?