O empenho social como forma de actividade espiritual

JOÃO ALVES

Padre, em Roma

No ano em que a nossa Diocese de Aveiro procura centrar a sua acção primeira na acção social da Igreja, talvez seja oportuno (e ao mesmo tempo arriscado) falar-se da dimensão espiritual que toda a acção sócio-caritativa contém. Vemos tantos cristãos (bem) empenhados em acções de voluntariado social, jovens que em cada ano fazem aumentar o grupo de formação para o voluntariado missionário, paróquias que sentem a necessidade de responder de uma forma organizada, a tantas necessidades sociais, quer com meios humanos e solidários, quer ao nível mais estruturado pela instituição de IPSS… No fundo, sabemos que queremos imitar a Cristo na sua atenção aos mais pobres e desfavorecidos. Bastará uma acção assistencial, estruturada e organizada ou esta acção é um dever da nossa vida espiritual em Jesus Cristo e que a alimenta ao mesmo tempo?

Toda a acção do cristão é chamada a ser um meio de santificação e de união a Deus; porém, mais que ‘meio’, ela é mediação para o mundo da vida divina. Como Igreja e como cristãos, somos interpelados a vivermos o presente como ‘sinal’ da Salvação prometida e vivida, na certeza que é pela nossa oração e acção que manifestamos e testemunhamos a verdade da nossa fé. Para nós cristãos, a nossa acção social ganha aqui um significado diferente e de dimensão espiritual para cada um, porque aquilo que realizamos não é apenas assistencial, mas é sinal e é presença do próprio Cristo, é apostolado e é caridade.

Na preocupação pela construção do reino de Deus, a nossa acção social é apostolado porque é continuação da actividade redentora de Cristo, é participação activa na Sua vontade actual e na Sua acção vivificante na Igreja. Todo o cristão se pode sentir em certa medida um ‘apóstolo’ e vive esta realidade com uma dimensão espiritual, como um forma e um meio de santificação, mediação e instrumento de Cristo.

Partindo da centralidade da eucaristia, a acção da Igreja é também caridade porque é concretização da missão a que esta nos impele. A resposta a Deus com amor na celebração sacramental deve ser recta e verdadeiramente orientada para a vida; não bastam as boas intenções, mas acções concretas, que são cumprimento da vontade de Deus.

A vida de apostolado do cristão, emerso pela lógica da caridade, é vivida espiritualmente na acção sócio-caritativa e no empenho pela cidadania e bem comum. Estas são também acções privilegiadas de compromisso cristão e de participação no desígnio de Deus que actua na história de cada pessoa, de cada povo, de cada cultura. Para cada cristão estas são formas privilegiadas e consequentes de união com Deus através destas mediações. Neste tempo em que vivemos, na procura constante de tantos planos pastorais diocesanos e paroquiais, é actual reafirmar que o empenho activo nas várias vertentes e necessidades da sociedade não é apenas um dever-fazer porque ninguém faz, nem a pretensão de afirmar por este meio a presença da Igreja na sociedade; é sobretudo reconhecer em cada rosto sofrido o próprio Cristo Sofredor e fazer da nossa acção e intervenção também uma oportunidade espiritual de santificação e da realidade em que vivemos. Podemos nós esquecer este apelo do Espírito e desafio à vida interior de cada um, que se reveste também da missão no empenho social? Não podemos correr o risco de esvaziar de sentido real a realização da nossa vida interior!