À Luz da Palavra – 1º Domingo da Quaresma – Ano A O simbolismo bíblico dos quarenta dias dá o nome a esta parte do ano litúrgico que iniciamos. Este número não tem valor em si mesmo; interessa-nos a ressonância que tem a evocação daqueles factos nos quais se manifesta a salvação de Deus, já que a Quaresma é tempo de «salvação e de graça». A Quaresma é um sinal sacramental eficaz que actualiza e opera em nós o mistério da salvação, realizada em Cristo, e que se deve ir aplicando a todas as pessoas por meio da Igreja. A liturgia deste domingo chama-nos à “conversão”, a repor Deus no centro da nossa existência, a aceitar a comunhão com Ele, a escutar as suas propostas, a concretizar no mundo os seus projectos de salvação.
A primeira leitura atesta que Deus criou o ser homem para a vida plena e feliz. Afirma que Ele é a nossa origem e o nosso destino último; que nos insuflou o seu próprio “sopro”, nos animou com a sua própria vida e nos criou para a vida definitiva, a plena comunhão com Ele. Porém, existe o mal, o sofrimento e a morte. De onde vêm? Este texto diz-nos que o mal nunca vem de Deus, mas das nossas erradas escolhas. Mas como é que chegamos a essa felicidade que está inscrita no projecto que Deus tem para nós e para o mundo? Se escutarmos e seguirmos a “voz” de Deus, experimentamos essa felicidade; mas, se nos fecharmos sobre nós mesmos e nos alhearmos das propostas de Deus, edificamos caminhos de sofrimento e de morte, onde imperam o egoísmo, o orgulho, a auto-suficiência. Que caminhos escolho eu?
O evangelho apresenta-nos Jesus, no meio do mundo, a fazer as suas opções. Perante as tentações, Jesus recusa, de forma radical, a viver a sua vida à margem de Deus e dos seus projectos. A Palavra de Deus assegura-nos que, se ignorarmos os projectos de Deus e procurarmos fora deles a nossa realização pessoal, enveredamos por uma vida perdida e sem sentido. Como Jesus, somos convidados a acolher a Palavra de Deus na mente e no coração e a rejeitar, firmemente, apoiados nessa Palavra, todas as tentações da actualida-de que nos aliciam a seguir outros “deuses” e outras propostas que, de modo algum, se coadunam com o nosso «ser cristão». Quais são os deuses que estão no centro da minha vida e que condicionam as minhas decisões e opções?
A segunda leitura oferece-nos dois exemplos: Adão e Jesus. Adão simboliza o ser humano que fecha os ouvidos e o coração às normas de Deus e decide, sem Deus, os caminhos da sua própria felicidade. Ao contrário, Jesus é o homem que opta por viver na obediência a Deus e, com Ele, traça para si mesmo e para nós o caminho da vida feliz. Por isso, Adão encontra-se na origem do egoísmo, do sofrimento e da morte, enquanto que Jesus gera a vida plena e definitiva. Nos tempos modernos, o ser humano, engrandecido pela ciência e pela técnica, cola-se no centro da história e esforça-se por erradicar o nome de Deus. Porém, o ser humano que daí resulta é uma pessoa infeliz, sem referências, alienada. Que posso eu fazer para que Deus volte a estar no centro da história e a as suas propostas sejam acolhidas?
Leituras do 1º domingo da Quaresma – Ano A: Gn 2,7-9; 3,1-7; Sl 51 (50); Rm 5,12-19; Mt 4,1-11
Deolinda Serralheiro
