Defender o património é um marco civilizacional

Amaro Neves, com outras pessoas, esteve na origem da ADERAV (Associação para o Estudo e Defesa do Património Natural e Cultural da Região de Aveiro), uma das mais antigas associações de defesa do património em Portugal. Corriam os anos 1977-1979, quando quem se preocupava com edifícios históricos era visto como “um dom quixote”, “um maluquinho do património”. Para falar do património aveirense e da sua defesa, o historiador esteve no Centro Universitário, em mais uma sessão do Fórum::Universal. Moderou o encontro Luís Souto, actual presidente da ADERAV. Aqui ficam as principais frases da sessão que decorreu na noite de 13 de Fevereiro.

Lutas da ADERAV

Em 1979-1982, a ADERAV esteve contra a construção da Torre Rumo, projectada para onde hoje se encontra o centro comercial Fórum Aveiro. A partir do momento em que o arquitecto Fernando Távora disse ser erro tal construção, a luta começou a ser ganha. Valeu a pena lutar e esperar por uma solução alternativa.

O mesmo se passou com a defesa da antiga Fábrica Campos. Sugeria-se que viesse a ser um museu da cerâmica ou até sede da CMA. Quem estava contra dizia que a recuperação era demasiado cara. Hoje, todos nos orgulhamos de ter a Fábrica ao serviço da cidade.

A criação da Bienal Internacional de Cerâmica Artística (e organização das primeiras edições) é outra das conquistas da associação.

A ADERAV visitou quase todas as igrejas e ermidas do distrito e colaborou com o ISCIA em pós-graduações abertas ao público. Esteve contra a construção do quartel dos bombeiros sobre a Igreja de Ílhavo e defendeu a Arte Nova, numa altura em que esta não merecia qualquer atenção das autoridades.

Como defender o património

“Visitando, visitando, visitando, questionando, estudando, divulgando”. A defesa do património é assumida pelos políticos durante as campanhas e logo a seguir esquecida. Por outro lado, a classificação do património pode ser perigosa. Podemos pensar: “Está classificado, já não temos que nos preocupar…”

Porquê defender o património?

Defender o património é um marco civilizacional. Precisamos de alicerces; senão, pairamos e desequilibramo-nos. Temos de ter marcos. Atitude semelhante é a da família da cidade que vem à aldeia mendigar as suas raízes.

Falta de apoios

Na última década, o património tem sido pouco estudado. Sem subsídios, não há estudos; sem estudos, não há gosto; sem gosto, não há preocupação pela salvaguarda dos bens culturais.

Sinais positivos

As escolas estão mais interessadas; os jovens partem à descoberta da história; desenvolve-se o gosto pelo turismo cultural.

Tesouros por descobrir

A Igreja de Oiã, com cerca de meia centena de pinturas, é obra única na região. Faz falta uma Rota de Cister no distrito de Aveiro, que parta do fundo do Vouga e conclua no convento de Arouca.

Tesouros em degradação

O Forte da Barra, “Património do Estado”, está num estado mais do que miserável. O “complexo Franciscano”, constituído pelas igrejas geminadas de S. Francisco e de Santo António, em Aveiro [junto ao parque da cidade], está em abandono geral [é actualmente uma das principais preocupações da ADERAV]. Situação escandalosa de um dos três monumentos nacionais de Aveiro! A Capela de São Tomás de Aquino também merece atenção.

Tesouros desaparecidos

A Igreja do Espírito Santo, a Igreja de São Miguel e a Capela de São João são exemplos de construções desaparecidas em Aveiro, tal como os sete conventos incendiados pela população aveirense em séculos passados.

Património mais recente

Há um património mais recente, como a arte industrial ou os painéis publicitários em azulejo [tema sugerido por um elemento do público], que precisa de uma recolha sistemática e de estudos.