Barbuda e Vasconcelos, notável poeta épico

Novo livro de Amaro Neves Barbuda e Vasconcelos e o livro “Virginidos ou vida da Virgem”nada dizem à grande maioria dos aveirenses. No entanto, o escritor nascido em Verdemilho, no ano de 1607, foi considerado um dos maiores poetas épicos da Europa, devido ao livro que publicou em 1667, dedicado à rainha D. Luísa de Gusmão

Manuel Mendes de Barbuda e Vasconcelos é mais um nome que o investigador e historiador Amaro Neves resgatou da prateleira esquecida da memória colectiva ao publicar a sua biografia em livro, com trechos de alguns dos seus poemas, tal como fizera recentemente com o Bispo D. Frei Miguel de Bulhões e Sousa, também natural de Verdemilho (1706).

O maior épico português

Amaro Neves revela que Barbuda e Vasconcelos “foi considerado, até ao século XVIII, o maior autor épico português. Depois, os ventos da história fizeram-no cair no esquecimento e hoje praticamente nem na sua terra era lembrado”.

Esse reconhecimento épico veio precisamente pela publicação do livro “Virginidos ou a vida da Virgem”, no qual o seu autor “conta as virtudes e os acontecimentos, como se de facto a Virgem Maria fosse a maior das heroínas existentes na Terra”. O livro, como realça Amaro Neves, teve uma única edição, motivo pelo qual actualmente é uma raridade e preciosidade bibliográfica. Apesar disso, o historiador teve a sorte de um desses raros exemplares estar na posse de um aveirense, que lho cedeu para realizar o trabalho de investigação histórica.

O poema épico “Virginidos ou a vida da Virgem” é um “livro imenso”, “um volume notável”, no dizer de Amaro Neves. O poema está dividido em 20 cantos e é constituído por 2.847 oitavas (estilo também adoptado por Luís de Camões no poema épico “Os Lusíadas”).

Amaro Neves explica que o motivo que o levou a interessar-se por Barbuda e Vasconcelos, e da avançar para o trabalho de investigação que culminou na edição deste livro foi “saber que esta personagem era uma figura notável da cultura portugusa, que nasceu e viveu nesta região, mais concretamente no espaço de Verdemilho e Bonsucesso, e que tem uma obra literária notabilíssima”. É um contributo também para que culturalmente figuras desta região não caiam no esquecimento”, acrescenta.

Barbuda e Vasconcelos tem ligações aos Vasconcelos, família nobre com grandes tradições em Verdemilho e também em Aveiro, como sublinha o historiador. Neste momento, é provável que ainda haja algum descendente de Barbuda e Vasconcelos, tanto mais que, diz o historiador, “os herdeiros da famosa Casa da Granja são seus descendentes directos”.

Sendo Barbuda e Vasconcelos um dos maiores poetas portugueses, ombreando em termos épicos com os maiores da antiguidade grega, é incompreensível que o seu nome e a sua obra não estejam incluídas nos currículos do ensino oficial, sendo mesmo “um nome irradiado da literatura portuguesa”. Até ao século XVII, cantar as virtudes da Virgem Maria era um objectivo de vida. A partir do século XVIII, com o liberalismo e o racionalismo, isso deixou de ser importante. Portanto, este grande e notável escrito sobre a Virgem Maria passou a ser um tema segundo plano”, explica Amaro Neves.

Juiz em Caminha,

Valença e Lamego

Manuel Mendes Barbuda e Vasconcelos estudou Direito na Universidade de Coimbra e exerceu cargos judiciais em Caminha, Valença e Lamego. Nasceu em Verdemilho, no dia 15 de Agosto de 1607, e faleceu nesse mesmo lugar, a 30 de Março de 1670.

Placa agora, estátua e reedição do livro

no futuro?

Quando do terceiro centenário da morte de Barbuda e Vasconcelos, o escritor e jornalista aveirense Eduardo Cerqueira publicou um artigo evocativo sobre a vida e obra desse poeta épico.

No passado dia 29 de Junho, após a apresentação pública do livro de Amaro Neves, editado pela Junta de Freguesia de Aradas e apresentado por Teixeira Carneiro, foi descerrada uma placa comemorativa do quarto centenário do nascimento de Barbuda e Vasconcelos. No entanto, e na presença do vereador da Cultura da Câmara Municipal de Aveiro, Miguel Capão Filipe, o historiador deixou o desafio para se erguer uma estátua que perpetue o nome do poeta, dizendo que “se fosse noutra cidade, seria feita uma estátua”, mas como “em Aveiro não estamos habituados a ter figuras de destaque das letras portuguesas…”

No ano de 2020, por altura dos 350 anos da morte de Barbuda e Vasconcelos, será a altura ideal para o livro “Virginidos ou a vida da Virgem” ter uma segunda edição.

Imagem revela antiga igreja de Verdemilho

Outro interesse deste livro está no facto de “mostrar às gentes desta terra como seria a sua antiga igreja paroquial, com quase mil anos de história, que estaria localizada junto ao Esteiro de S. Pedro”, afirma Amaro Neves. A igreja desapareceu há cerca de 150 anos. Não ficaram memórias escritas nem imagens. “Há uma gravura do século XVII que nos mostra como seria o alçado dessa igreja, e achei importante mostrar neste livro como seria essa igreja”, relata Amaro Neves.

Eça de Queirós viveu em Verdemilho

e nesta terra quis ser sepultado

Para além de Barbuda e Vasconcelos, António Mário Neto, presidente da Junta de Freguesia de Aradas, destacou alguns nomes que pessoas célebres que viveram em Verdemilho, nomeadamente o escritor Eça de Queirós, que aí passou vários anos da sua infância e onde teve os seus primeiros anos de escola.

Eça de Queirós residiu na casa do seu avô, o conselheiro Queirós, uma figura ímpar na luta contra o absolutismo em Portugal, o que faz dele também uma referência histórica para Aveiro e para o próprio país. Apesar disso, a casa onde ambos viveram encontra-se praticamente em ruínas, apesar de haver, há vários anos, um projecto municipal para a reconstruir e reconvertê-la num espaço museológico e de estudos queirosianos.

O autarca lamentou o estado de degradação da antiga casa da família Queirós e também o facto dos restos mortais de Eça de Queirós (falecido em Paris, França) nunca terem sido sepultados em Verdemilho, apesar de ter sido esse o seu desejo.

O autor de “Os Maias” está sepultado em Tormes.