A fé é um dom de Deus que precisa do testemunho humano

Catequese quaresmal “Evangelizar exige testemunho de vida, mas não como técnica ou táctica”. No entanto, “o lugar onde nasce a fé escapa ao nosso controlo”, afirmou D. António Francisco na segunda catequese quaresmal, que decorreu na noite de 25 de Fevereiro. Entretanto, a terceira catequese decorreu no dia 4 de Março e para o dia 11 deste mês está marcada a última deste ano. As catequeses, com elevada participação, têm lugar no Salão de S. Domingos, em Aveiro.

O Bispo de Aveiro centrou a sua comunicação na necessidade de evangelizar enquanto missão dos cristãos, para despertar a fé, mas sem esquecer que esta é “dom gratuito e generoso de Deus”. O seu “acolhimento passa-se sempre no santuário íntimo da consciência”, pelo que “evangelizar não é convencer nem conquistar”. É prestar “testemunho do amor gratuito de Deus”, num semear com mais incertezas do que as do agricultor, já que o agricultor sensato não semeia nos maus terrenos. “Evangelizar consiste em semear, com alegria e confiança, sabendo que são diferentes os terrenos” e são diferentes as respostas ao dinamismo da semente. “Há sempre um recanto onde a semente pode e vai germinar”, afirmou. Noutro momento da catequese, perguntaria, frisando a necessidade da acção humana para despertar o tal dom que é divino: “Quem chama hoje os pobres e ignorados? Quem procura os descrentes e desenraizados?”

Na segunda parte da catequese, o Bispo de Aveiro apresentou três (mais uma) pessoas, próximas ou distantes no espaço e no tempo, que se distinguiram na vivência do Evangelho.

Francisco de Assis (1182-1226), que não quis ser padre, mas apenas diácono, desposando a “dama pobreza”, assumiu uma “luta contra o materialismo e o consumismo”. Foi “paladino do valor da natureza”, “pioneiro da ecologia”. Quando morreu, tinha mais de três mil discípulos, incluindo o “nosso” Santo António. Mas tem muitos mais, porque “no coração e na alma, somos de certo modo franciscanos”, afirmou D. António Francisco.

Carolina Sousa Gomes, filha de um professor da Universidade de Coimbra, fundou em Coimbra as Criaditas dos Pobres. Foi há oitenta anos. Por Aveiro passou a história inicial das religiosas pobres (“pobreza limpa e discreta, mas pobreza autêntica” – como escreve D. Manuel de Almeida Trindade) que se dedicam ao serviço dos pobres.

Hoje, essa história continua no Brasil. Foi aveirense uma das primeiras aderentes às Criaditas: Clementina Conceição da Costa; e foi em Aveiro que as religiosas abriram a primeira casa fora de Coimbra. Nesta sessão de catequese estavam duas das três Criaditas que moram em Aveiro. Como é compreensível, ficaram sensibilizadas com as palavras do Bispo de Aveiro sobre a fundadora e a missão das Criaditas.

O último exemplo invocado pelo Bispo de Aveiro foi o P.e Alírio Baptista, natural de Calvão, fundador de missões em Moçambique, criador de escola, clínica e exploração agrícola. O missionário da Boa Nova morre em Novembro de 1983, vítima de uma emboscada da Renamo. Tinha 52 anos. Está incluído na lista dos novos mártires, elaborada a quando do Jubileu do ano 2000. A esta figura, P.e Georgino Rocha dedica um capítulo da obra “Ao serviço da Fé na Sociedade Plural” (Ed. Princípia).

“À medida que vou lendo a história de Aveiro, vou descobrindo mais razões para amar a nossa diocese”. D. António disse-o a meio da catequese, mas esse foi, provavelmente, o pensamento, a certeza, com que muitos saíram da segunda catequese quaresmal.

J.P.F.