Do caos ao cosmos

O caminho do caos ao cosmos físico é relativamente pacífico. As leis físicas, deterministas, cobrem as próprias situações de excepção, reagindo “matematicamente” quando a pessoa humana pretende distorcer o seu curso. Diz o povo, e com razão: “A natureza vinga-se”, quando se lhe invade o domínio, pretendendo substituir-se a ela.

A questão do percurso do caos pessoal ao cosmos pessoal, isto é, da desordem à harmonia pessoal é bem diferente. E, por consequência, algo de análogo se pode dizer do percurso do caos ao cosmos social.

No cerne desses percursos está a consciência e o exercício da liberdade. O caminho exige convicções, ordenamentos (jurídicos, sociais…), princípios e práticas educativas. E tudo isto em verdadeiro concerto comunitário. “A liberdade necessita de uma convicção; esta não existe por si mesma, mas deve ser sempre conquistada comunitariamente” (Bento XVI – Spe Salvi, n.º 24).

As estruturas são importantes, necessárias; mas insuficientes para garantir a harmonia social, para construir o cosmos pessoal e do tecido dos enredos das pessoas. As estruturas “não podem nem devem impedir a liberdade do ser humano”. Elas mesmas só servem esta construção, “só funcionam se, numa comunidade, subsistem convicções que sejam capazes de motivar os seres humanos para uma livre adesão ao ordenamento comunitário” (cf. SS,n.º 24).

É a tensão permanente entre o crescimento do indivíduo e a consolidação da sua vertente de ser em relação. É o caminho da educação, que supõe valores a assimilar, regras que os explicitem, autoridade e competência para os comunicar e motivar a viver, sanções para os predadores desta tarefa comunitária.

É paradoxal pretender “disciplinar” as comunidades educativas, sugerir este percurso do caos ao cosmos – pessoal e social – desestruturando, ao mesmo tempo, a célula que é o seu suporte prioritário, a família, e marginalizando, ou atacando mesmo, aquelas comunidades educativas que ofertam uma visão integral da pessoa e da educação, reclamando que a integre a vertente religiosa.

Engana-nos quem pretende despojar a educação de toda a espécie de valores, quem perverte por completo as referências de responsabilidade e autoridade parental, para ofertar, em seguida, um estatuto de educando e de educador, um currículo de matérias e um enunciado de competências, que não têm destinatários capazes…, porque o que se fomentou foi o caos.

“A liberdade deve ser incessantemente conquistada para o bem. A livre adesão ao bem nunca acontece simplesmente por si mesma” (SS. Nº 24). É indispensável admitir e buscar o Bem, sem relativismos, para se construir uma sempre nova e trabalhosa harmonia.