Falsas médias…

A imagem usada pelo Professor é, no mínimo, hilariante. Divertida, caracteriza, todavia, muitas situações reais do nosso país, de instituições e públicos diversos – sanitário, educativo, cultural, desportivo, confessional…

Então: “Uma pessoa, com a cabeça dentro do frigorífico e com os pés sobre uma fogueira, está com uma temperatura média do corpo satisfatória”… Nem mais nem menos! As médias estatísticas dão para juntarmos o melhor com o pior e ficarmos contentes com os “resultados médios”. Só que, na realidade, essas médias não existem. Existem, isso sim, os extremos.

Alguns, com os avantajados meios de que dispõem, têm garantida a conservação da qualidade de cuidados hospitalares, médicos, medicamentosos. A grande maioria queima o seu tempo, as suas poucas forças, os seus magros euros, nas filas e listas de espera, nas madrugadas de vigília, nas correrias a ver se alguém lhes acode ao fogo do abandono, da exclusão.

Uns poucos beneficiam de todas as oportunidades para desenhar o seu futuro, no tipo de formação que desejam, nos cursos que escolhem, nos empregos ambicionados…, enquanto uma multidão de outros arde no consumo da única oferta de formação ao seu alcance, sem os quadros de valores que deseja, atirando-os para cursos de terceira escolha, enviando-os para o terreno da precariedade de emprego, tolhendo-lhes um projecto que articule a sua realização pessoal com a alegria de uma útil prestação comunitária… Mas… não há licenciados no desemprego!…

Certas zonas urbanas, e restritos públicos, têm acesso aos bens da cultura (cinema, teatro, exposições, conferências, meios de comunicação social…), enquanto a maioria do país se consome no fogo de uma desesperada auto-suficiência cultural.

Cultiva-se a alta competição, gastam-se milhões em craques e estádios…, mas não há verbas para a multidão poder usufruir de educação física adequada às suas idades, apoio físico à recuperação das suas energias…

Gastam-se somas incalculáveis em suportes a actividades e forças de cariz ideológico. Mas estrangulam-se as forças vivas da sociedade, incluídas as religiões, como se a missão do Estado fosse fazer, dirigir toda a coisa pública, em vez de estimular e dar suporte à iniciativa dos cidadãos.

Podemos concluir que o país está bem, que os portugueses têm uma boa média de vida sanitária, educativa, cultural, desportiva, confessional…? Claro que não! As dores de muitos não são contrabalançadas pela frescura de uns poucos. Pelo contrário: os que já foram ministros, a ganharem fortunas, não engordam, antes esvaziam, os bolsos da multidão dos pobres!… Falsas médias!…