Reencontro ou redescoberta vital

As frequentes profecias de sociólogos, políticos, fazedores de opinião e tantos outros, que prevêem, a curto prazo, o desinteresse generalizado pelo cristianismo e o abandono maciço da Igreja nunca me impressionaram por aí além. A vida vai-nos ensinando quais as fontes que as alimentam e os interesses e sentimentos que se escondem por detrás de palavras, só aparentemente seguras. Ao mesmo tempo, vai-nos mostrando, também, que onde existe honestidade na procura sincera e objectiva da verdade o reencontro ou o regresso à fé cristã acontece como uma redescoberta vital e feliz.

É verdade que o cristianismo não vai na onda em que muitos gostam de boiar, não está voltado para cedências no que toca a aspectos essenciais da sua mensagem, não treme ante sondagens e estatísticas de acontecimentos de cariz religioso, se lhe são pouco favoráveis. Muito menos vive a Igreja obcecada pelo medo de ver os templos vazios, como tanto insistem os que aí não entram, ou fica paralisada e desnorteada por saber que há gente que propagandeia os seus desinteresses em relação ao transcendente.

As preocupações da Igreja vão noutro sentido, bem mais sério e estimulante: como empenhar a todos na vivência do Evangelho de Cristo e na coerência de vida, como encontrar, no seio da cultura actual, as palavras e os sinais que melhor anunciem ou recordem aos homens e mulheres de hoje as verdades que não mudam, nem podem mudar, porque são essenciais à compreensão mais profunda da vida e a resposta adequada às interrogações persistentes, que fervilham no coração humano.

Em passagens recentes pelo Alentejo pude ver, em várias paróquias, um renascer religioso, apoiado em grupos mais esclarecidos e apostólicos; no mundo dos jovens vêem-se, por todo o país, sinais inequívocos de adesão à fé e de compromisso cristão; multiplicam-se movimentos de leigos, abertos a caminhos novos de evangelização e de presença; cresce o número de iniciativas válidas para esclarecer e formar cristãos que até aqui se contentavam em seguir as suas tradições; chegam notícias de países diversos, onde o secularismo fez estragos de monta, a falar do regresso de milhares ao seio da Igreja, por encontrarem aí de novo quem os esclarece e acolhe, após o abandono de anos; não faltam famílias a testemunhar que, depois da devastação, ideológica e política, que lhes foi destruindo o ideal de um lar feliz e conspurcando o amor da primeira hora, encontram agora na Igreja o apoio e a compreensão que não encontraram em nenhum outro lado; os santuários são hoje lugares procurados por crentes e não crentes…

Não queremos dizer com isto que tudo está bem e não há mais crise, nem razão para preocupações. Ao contrário. Os projectos de outros rumos, humanos e sociais, que afectam o sentir religioso de muitas pessoas, instalaram-se na sociedade, actuam com fortes suportes de apoio, continuam com o objectivo confessado de apagar Deus das consciências e da própria vida social. O Evangelho o previu desde o início do cristianismo e nunca, ao longo da história, isso constituiu motivo para cruzar os braços ou aceitar derrotas antecipadas. Pelo contrário, onde um problema, aí uma presença.

A situação normal da Igreja, no seu conjunto e por fidelidade ao projecto que encarna, é de luta e sofrimento para dar testemunho da verdade e ser sinal universal da salvação de Deus. Por isso, nela tem de mudar muita coisa, tanto por fidelidade ao Mestre, como aos homens. Impõe-se, dado que as pessoas estão cada vez mais batidas por dificuldades, problemas e desilusões, e já se vêm resultados positivos onde assim acontece, um espírito novo de serviço e de gratuidade, traduzido em acolhimento incondicional, diálogo esclarecedor, respeito por todos e por cada situação, compaixão, e solidariedade para com os mais fracos e oprimidos, pedagogia estimulante que considere cada um, nas respostas e nas propostas, segundo as suas capacidades e a sua situação perante a fé. Há que voltar, sem demora, a Jesus Cristo, Mestre e Senhor.