JOÃO ALVES
Padre
Até pode parecer um título de provocação a quem faz este serviço de atendimento paroquial ou de cartório. Mais do que uma provocação, é uma partilha de uma realidade que se torna na vida de hoje uma exigência no caminho sério de fé e na vida de crescimento na santidade.
Todos sabemos que a vocação de todo o cristão passa pela santidade, não como uma proposta de vida ‘piegas’ ou de ‘beatos’, como por vezes se ouve dizer, mas como desafio que Deus faz a cada um de nós num esforço a dois (nós e Ele) de superação para o encontro e identificação com Cristo na vida de cada dia e de cada um. O Papa João Paulo II deixou-nos o exemplo, ao beatificar e canonizar tantos homens e mulheres (adultos e crianças) de todos os tempos e de todas as situações, para nos dizer também que a santidade ou faz parte da possibilidade do nosso ser em caminho, ou corremos o risco de não crescer na fé, na esperança e na caridade, estagnando assim a nossa vida cristã em águas pantanosas (paradas!).
A direcção espiritual ou acompanhamento espiritual não é mais do que uma forma de crescer no descobrimento de nós próprios e segundo o chamamento de Deus. Sabemos que, sozinhos, o caminho se torna mais difícil e sabemos que nem sempre sabemos responder sozinhos às respostas basilares da nossa existência. O director espiritual, que em tempos era uma exigência para quem estava em caminho de discernimento vocacional, com o tempo passou a ser uma proposta que a Igreja faz a cada cristão, de crescimento na fé, na vocação e como pessoa a caminho. Hoje todos os movimentos têm a função do assistente espiritual (ainda que tantas vezes se confunda com a figura de coordenador, ou outras vezes com a verdadeira acepção da palavra ‘assistir’!); as casas de formação religiosa têm na figura do director espiritual uma pedra-chave e fundamental de todo o projecto; a formação permanente de cada presbítero deve ter presente a continuação da direcção espiritual como oportunidade de o ministério ordenado como elemento de vida espiritual; tantos leigos encontram na reconciliação não só um espaço sacramental mas também uma hipótese de falar de si, dos seus problemas e das suas angústias de vida e de fé, mas por vezes sem consequências ou sem um projecto de continuidade.
Já não vivemos num tempo de cristandade europeia, mas vivemos uma época que desafia cada cristão a dar razões da sua fé não só pela demonstração razoável daquilo em que acredita, mas pela confirmação existencial (testemunha) da verda-de que Jesus é em cada um. A esta exigência de hoje a Igreja propõe uma formação cristã adequada, mas urge cada vez mais apostar numa vida espiritual equilibrada, que seja coerente com a formação e com a fé professada. Precisamos de forma de acompanhamento (centros, retiros, grupos, itinerários juvenis) com padres, religiosos e leigos capacitados para acompanhar espiritualmente; precisamos de repensar a nossa atitude de penitentes e a nossa atitude de confessores, para que o encontro com Cristo libertador torne o lugar da imagem do juiz; precisamos de redimensionar a nossa pastoral em dinâmica vocacional, para que cada um possa encontrar na acção da Igreja o chamamento interior que Deus faz e encontre em Igreja a possibilidade de ser motivado, acompanhado por pessoas e estruturas capazes e credíveis e assim poder responder livremente; precisamos de estratégia pastoral, para que, para além do cartório, dos grupos, dos planos, das iniciativas e das programações, possam surgir espaços, tempos e oportunidades de o pároco ser verdadeiro ‘pastor de almas’ e de cada cristão procurar ser imagem viva de Cristo e testemunha da Boa Nova na vida do mundo.
Um teólogo do século passado (Karl Rahner) dizia que “o cristão do futuro, ou será místico ou não será cristão”. Quando se fala de ‘nova-evangelização’, de novos dinamismos pastorais, de uma presença renovada na sociedade, entre tantos desafios que são lançados a um cristão, a sua vida interior espiritual e o acompanhamento que pode ter para que Cristo seja cada vez mais uma realidade presente não pode ser apenas mais uma aposta, mas deve ser a raiz na qual tudo faz sentido. O acompanhamento espiritual é apenas mais um desafio que a Igreja coloca a todos os cristãos, para que a acção do Espírito de Deus possa ser reconhecida e discernida e cada um possa ser melhor pessoa, melhor cristão, perseverante na fé e actuante no mundo de hoje na certeza da salvação já presente na história.
