A arte da política, para ser nobre, tem de se revestir de um conjunto de características, a menor das quais não é, de forma alguma, a transparência. O que desacredita os políticos e gera a indiferença dos cidadãos face à gestão da coisa pública é a perversão, a rede oculta de interesses, que obscurece as relações do poder com o povo, semeia dúvidas sobre as suas intenções e resulta em benefícios chorudos para os caminhos incógnitos – normalmente económicos, se não ideológicos (hoje já não resistem ao dinheiro!) – que controlam os próprios poderes políticos.
Não sabemos aonde vamos parar com a crise energética. Ou melhor: sabemos que a classe média e o povo simples pagam o grosso da factura até à exaustão, aumentando cada dia o número de deserdados incapazes de responder às exigências de primeira necessidade ou endividando-se e vendo-se confrontados com a única saída – a falência -, para sua desonra e para miséria dos que ainda neles se apoiavam.
E, todavia, os lucros das empresas produtoras e distribuidoras dos combustíveis anunciam-se escandalosos. Os salários de quadros superiores dessas mesmas empresas fazem estarrecer de raiva os pobres que têm de contar os cêntimos na hora do abastecimento. E onde está a autoridade reguladora do comércio destes bens essenciais – por enquanto! – para o trabalho e para a produção? O poder político não conhece a realidade ou não pode falar claro sobre ela? Quem ou o quê impede que se analisem todos os factores, todos os números, para fazer pagar a factura do aumento do petróleo a quem a pode e deve pagar?
A intervenção do senhor Presidente da República poderá ficar-se por uma singela chamada de atenção para o problema? Se alguém põe o dedo na ferida – a chaga purulenta da pobreza, imerecida para tantos! – logo se reclama que o Governo está atento, que o problema foi herdado, que se não recebem lições de ninguém quanto a compromissos sociais…
Quem nos reacende a esperança?… Um mísero cheque para tratamento dentário a idosos e grávidas?… Os milhares de milhões para os projectos megalómanos são indispensáveis para modernizar Portugal, para nos deixarem orgulhosos de integrarmos o pelotão da frente – respondem os governantes. A fazer o quê?… A expor a nossas carências de bens essenciais, a nossa baixa taxa educativa, a nossa elevada falta de qualificação profissional (ou a adquirida em formações “faz de conta”, que só aumentam o engano?), o nosso desastroso sistema de saúde?… Miseráveis, mas modernos, com TGV e tudo!…
“Quem vem acender faróis nas costas do mar bravo” que atravessamos, para nos entusiasmar a rumar para porto seguro, sabendo que as dificuldades estão pela frente mas o caminho se nos abre, certos de que temos de percorrer distâncias, mas orientados para as vencer?… Quem nos reacende a esperança?…
