A ética é o melhor investimento

Está em processo de formação o núcleo de Aveiro da ACEGE – Associação Cristã de Empresários e Gestores, com o apoio do Bispo de Aveiro. Realizaram-se recentemente dois encontros entre empresários de Aveiro e dirigentes da ACEGE, à volta da ética nos negócios e da responsabilidade social nas empresas. O primeiro foi no dia 25 de Fevereiro e contou com as intervenções de José Roquette e Jorge Líbano Monteiro. O segundo foi no dia 19 de Maio, com António Pinto Leite.

O Correio do Vouga esteve nos dois encontros, que decorreram no Seminário de Aveiro, e dá agora a conhecer as principais ideias destas iniciativas. Sendo sobre a vivência dos valores éticos nas empresas, não dizem respeito somente aos empresários, mas a todo o sistema económico, de que são peça fundamental, e a todos os cidadãos, que, como empregados ou consumidores, lidam constantemente com empresas. J.P.F.

“A ética é um investimento de longo prazo, mas é o melhor investimento”, afirma António Pinto Leite aos empresários aveirenses. Segundo este dirigente da ACEGE, a ética e a responsabilidade social não são só para as grandes empresas, que naturalmente gostam de fazer publicidade desses compromissos, mas para todas, a começar pelas pequenas e médias empresas, que “podem mudar o mundo”.

Para que “ética e responsabilidade social” não sejam palavras generalistas e vazias, o advogado aponta compromissos concretos que os empresários podem assumir:

* políticas de maternidade e de apoio à família, nomeadamente a facilitação de horários para além do que está na lei;

* pagamento aos colaboradores acima do salário mínimo, principalmente àqueles que têm funções não diferenciadas (como as limpezas); “temos de agir à luz da justiça e da generosidade. Mais do que justos, devemos ser generosos”, afirmou;

* pagamento a fornecedores na hora, em vez dos pagamentos a três, seis ou mais meses. Neste ponto, António Pinto Leite reconhece que há muito a fazer, a começar pelo Estado, “o pior a pagar”, mas também há empresas que o cumprem;

* políticas de respeito ambiental, através de poupança de energia (“podem recolher-se boas ideias no site da EDP”, afirmou) ou do “reduzir, reciclar e reutilizar”;

* prática de voluntariado por parte dos empresários e gestores. “Disponibilizar tempo para servir a comunidade é um sinal”, afirmou, e permite compreender melhor a sociedade.

António Pinto Leite considera que alguns destes compromissos podem parecer de difícil assunção ou “coisa de lisboetas”, mas são fundamentais para gerar a mudança. “Se dez ou quinze empresários de Aveiro assumirem estes compromissos, pode gerar-se um efeito de bola de neve e amanhã serão muitos mais”, afirmou ao Correio do Vouga.

Para despertar a consciência empresarial, a ACEGE está a elaborar um questionário que cada empresário ou gestor cristão poderá preencher individualmente, fazendo uma espécie de exame de consciência.

A missão da ACEGE, sublinhou António Pinto Leite, não é ser “um clube de almoços”, mas também não está no campo da política. “A ACEGE não vai votar; não vai ajudar os poderes. Mas tem de ajudar as empresas e os que nelas estão. O dom que nós temos é a nossa própria empresa”.

Gestores e empresários que querem assumir outros valores

“As empresas só têm ética se as pessoas que nelas trabalham assumem os valores éticos”, afirmou José Rouquete a cerca de quatro dezenas de empresários e gestores que se juntaram no Seminário de Santa Joana, do dia 25 de Fevereiro, por iniciativa de alguns dirigentes empresários que estão a formar um núcleo da ACEGE (Associação Cristã de Empresários e Gestores) em Aveiro, com o apoio do Bispo Diocesano.

Destacado empresário, embora seja mais conhecida a sua faceta de dirigente desportivo, José Roquette esteve na origem do “Código de Ética dos Empresários e Gestores”, peça fundamental na identidade da ACEGE. Nele se lê que “há obrigações éticas na acção empresarial” como “oferecer condições de trabalho que respeitem a dignidade, a saúde e a segurança dos trabalhadores e proporcionem oportunidades de formação que desenvolvam as suas competências e capacidades”. Por isso, o empresário defendeu que gestores e empresários devem atender e apoiar os “projectos de vida dos colaboradores”. Quando isto acontece, “produzem-se sinergias absolutamente extraordinárias”, em que ambas as partes, tendencialmente em conflito e “articuladas por interesses à partida divergentes”, saem a ganhar. O principal capital das empresas são as pessoas que nelas trabalham.

A oposição entre a fé e a vida empesarial

é uma forma de recusa da vocação cristã

Empresário do sector do turismo e dos vinhos, depois de ter dirigido um clube desportivo, José Roquette vê a actividade de gestor e empresário como desenvolvimento da vocação cristã. “Deus pôs-me na mão talentos para gerir”, afirma, considerando que a doutrina social da Igreja é uma boa estrutura sobre a qual se pode apoiar projectos empresariais

CORREIO DO VOUGA – A doutrina social da Igreja continua a fazer sentido na vida empresarial?

JOSÉ ROQUETTE – Não tenho qualquer dúvida. A doutrina social que a Igreja expressou através das suas encíclicas fundamentais continua hoje a ser actual. A doutrina social não está ultrapassada nem pelos acontecimentos, nem pela inovação, nem pelas mudanças do mundo. Continua a ser a estrutura sobre a qual é possível apoiar projectos empresariais válidos.

Pode dar um exemplo?

Sublinho o que referi na exposição [aos empresários e gestores]. Hoje as empresas devem enquadrar as pessoas autenticamente como pessoas, com o seu projecto individual. Isto vai ao encontro da nossa convicção de que Deus Criador tem um projecto para cada um de nós, objectiva e muito especificamente. “Até os cabelos das vossas cabeças estão contados”, diz-se no Evangelho. Se o colaborador se sentir bem na empresa, ganha a empresa e ganha o colaborador.

Por outro lado, constatamos que o fim do trabalho repetitivo e mecânico – pelo menos em certos sectores – deixou a cada um espaço para desenvolver os seus talentos, que são dons de Deus. Hoje, uma das coisas fundamentais por que os empresários lutam é descobrir e manter talentos ao serviço do seus projectos, que se sintam realizados e cresçam como talentos dentro dos projectos empresariais. Para tal, é importante o equilíbrio entre o projecto de vida individual e a vida profissional.

Como comenta a afirmação de que “um cristão honesto não pode ser bom empresário, tal como um empresário de sucesso terá pouco de cristão”?

Essa é uma visão profundamente errada. Isso quereria significar que o cristão, como tal, se recusa a lutar pela sua presença na actividade profissional… Há que distinguir. O cristão pode viver com ética a sua actividade empresarial. Nós, católicos, temos uma perspectiva que é fundamental. Somos meramente depositários da riqueza material. Não somos titulares de coisa nenhuma. Deus pôs-me na mão talentos para gerir. Não sou proprietário deles. Não quer dizer que não haja empresários que não tenham vocação para vendilhões do templo; claro que há. Mas essa oposição entre fé cristã e negócios é uma forma de recusa da vocação e missão de ser fermento na vida de todos os dias, em todas as actividades.

Como vê a formação do núcleo de Aveiro da ACEGE?

Com muita esperança. Com o tecido empresarial que existe na região, a par da universidade inovadora e com a abertura da Igreja, estão reunidas as condições para o constituir, alimentar e dinamizar. Temos as condições todas para que o núcleo seja uma história de sucesso.

Os gestores católicos

devem colaborar com as paróquias

Um dia, já depois do jantar, António Pinto Leite pediu a um padre que o confessasse. “Só agora é que cumpri a minha vocação”, respondeu o padre após ter atendido o advogado. A constatação de que os padres estão cheios de trabalhos que não são específicos do sacerdócio levou a ACEGE a querer ajudar padres e paróquias, como explica Jorge Líbano Monteiro

CORREIO DO VOUGA – A ACEGE pretende colaborar com os padres e as paróquias. Em que consiste esse projecto?

JORGE LÍBANO MONTEIRO – É um projecto tentativo. Parte da constatação de que muitos dos nossos padres estão mais ocupados em tarefas administrativas do que com a parte pastoral. Sabendo que o desejo deles é poderem dedicar-se somente à pastoral e libertarem-se do peso administrativo, e sabendo que os gestores da ACEGE podem fazer melhor a parte administrativa e de gestão do que a parte pastoral, a ideia era mesmo ver como é que se consegue encontrar uma forma de os gestores apoiarem algumas paróquias, envolvendo-se mais directamente nesta parte de gestão, libertando os padres para outras actividades.

Que passos já foram dados para concretizar essa ajuda?

Houve contactos com a Conferência Episcopal e uma aceitação do nosso trabalho. Vamos trabalhar em conjunto nos próximos três anos. Para já, foi lançado um inquérito a padres da diocese de Lisboa para percebermos em que pontos é que podemos ajudá-los. Entre a vontade de ajudar e saber onde havemos de ajudar vai uma certa distância. Uma empresa especializada está a fazer esse trabalho de forma a perceber quais são os mecanismos comuns a várias paróquias e que podem ser facilitados.

Na prática, em que áreas poderá a ACEGE ser útil aos padres e às paróquias?

Penso que poderá colaborar na informatização da administração e na parte da contabilidade. Poderão ser criadas uma central de compras ou gabinetes especializados de apoio ao nível do património… Há um campo aberto de possibilidades em que vamos trabalhar a partir de Junho.

Assumem este trabalho como missão de leigos…

É a realidade. É assumir que o gestor católico, se é católico, está envolvido na vida da Igreja. Acreditamos que a grande missão do empresário católico é dar exemplo no sítio onde está, a empresa. Mas se achamos que temos capacidades e competências para ajudar as paróquias a organizarem-se melhor, temos de colaborar.

Obrigações éticas na acção empresarial

Excertos Código de Ética da ACEGE. Apresenta-se os cinco princípios das “obrigações éticas na acção empresarial” e algumas das suas concretizações. Para ler o Código na íntegra, consulte www.acege.pt.

1.DIGNIDADE DOS HOMENS QUE COLABORAM NAS EMPRESAS

• Oferecer condições de trabalho que respeitem a dignidade, a saúde e a segurança dos colaboradores e possibilitar oportunidades de formação que desenvolvam as suas competências e capacidades.

• Estabelecer uma remuneração justa, ponderada pela realidade do sector económico, pelas possibilidades reais da empresa, pelos serviços prestados e pelo mérito e especificidade dos colaboradores.

2. ECONOMIA SOCIAL DE MERCADO

• Promover uma concorrência leal e honrada, numa atitude de boa fé em toda a actuação no mercado.

• Optar nas decisões de investimento pelas soluções que salvaguardam a justiça social.

• Rejeitar toda a publicidade e marketing que sejam degradantes indignas, manipuladoras ou abusivas.

3. EXCELÊNCIA NO TRABALHO E NA ACÇÃO EMPRESARIAL

• Desempenhar o trabalho quotidiano procurando sempre a excelência, através da competência, técnica e humana, da dedicação e do empenho em tudo o que realizarmos.

• Conjugar a procura da excelência com critérios de humanidade, visando evitar o esgotamento do ser humano na sua dimensão produtiva.

4. RELACIONAMENTO COM O ESTADO BASEADO NA EXIGÊNCIA, INDEPENDÊNCIA E LEALDADE

• Lutar, individualmente ou em associação com outros, contra toda a iniquidade e desperdício por parte do Estado, tendo por imperativo moral a obrigação de sempre e em todas as circunstâncias denunciar e combater o desperdício de recursos ou a sua errada utilização.

• Não praticar qualquer acto económico à margem da lei, no âmbito da economia paralela que falseia o mercado e mina o estado de direito.

5. RELACIONAMENTO COM A SOCIEDADE BASEADA NA SOLIDARIEDADE E NA RESPONSABILIDADE

• Ser solidário na prossecução de políticas sociais.

• Privilegiar uma cultura de valorização e respeito pela natureza, nomeadamente renovando os recursos utilizados, evitando o desperdício e a poluição através da eco-eficiência e tendo em conta as consequências ambientais e sociais da sua actividade, salvaguardando a criação e o futuro.

À ACEGE aderem os empresários, não as empresas

No encontro de Aveiro, Jorge Líbano Monteiro, elemento da direcção nacional da ACEGE, sublinhou que a adesão à associação se faz “em nome pessoal e não da empresa” e frisou que o Código de Ética é “um quadro de referência para que cada gestor tome decisões seguras”. Referiu ainda que a ACEGE quer criar um fundo de capital de risco, intitulado Bem Comum, para desempregados com mais de 40 anos que queiram criar a sua própria empresa. Para esse fundo está quase alcançado o capital inicial de dois milhões e meio de euros.

www.ver.pt

Portal VER

VER significa Valores, Ética e Responsabilidade. Trata-se do portal promovido pela ACEGE para destacar os valores, a ética, a responsabilidade, a liderança e a inovação. Sobre estes cinco grandes temas, são facultados documentos, relatórios internacionais, notícias e eventos.

Sempre na perspectiva de promover os valores humanos que contribuem para uma sociedade mais justa, mais ecológica e mais solidária, este portal é único a nível nacional. Mostra que é possível uma economia com princípios que a tornam mais humana.

Informações Úteis

Onde ler o Código de Ética e obter outras informações sobre a associação:

www.acege.org

Contactos do Núcleo de Aveiro:

Rui Falcão, tel.: 968 048 761

rui.falcao@eduweb.pt

10 Núcleos da ACEGE:

Estão localizados em Lisboa, Braga, Bragança, Vila Real, Lamego, Aveiro, Coimbra, Évora, Beja e Funchal.

Número de associados no total:

Cerca de 1000.