Crise permanente?…

A crise é, por origem semântica, um momento de purificação. Permite separar o joio do trigo, distinguir o essencial do acessório, conservar o que é permanente e mudar o que é efémero… Teoricamente é assim! E é sempre benéfica, quando se assume como tal e se opera esta metamorfose pessoal, social, eclesial…

Preocupante é que as crises se instalem como forma permanente de vida, seja a que nível for: nunca se perceberá o que importa conservar e consolidar, o que importa corrigir, o que importa deixar cair. Se bem que as metamorfoses sejam um dinamismo permanente, elas têm de apresentar-se em sucessivas fases estabilizadas, que permitam identificar o rumo que se leva e as etapas percorridas.

A crise de valores trazida pela modernidade foi benéfica, para purificar, mesmo a nível religioso, o que é permanente daquilo que é o pó da história, dos tempos e dos quadrantes diversos. Grave foi e é a situação que se perpetua num relativismo constante e generalizado de todos os valores. É absolutamente indispensável à sobrevivência da Humanidade que reencontre os valores estruturantes, que serão eles próprios a relativizar o acessório de cada época ou circunstância.

A crise económica e social que atravessamos – preço dos combustíveis, perigo de carências alimentares generalizadas, o espectro da falta de água potável, o efeito de estufa…- consequência, sem dúvida, da crise de valores, pode trazer benefícios incalculáveis a todos. O que reclama é o empenho de todos em redescobrir e assumir quadros de valores inquestionáveis.

A começar por exigir que se coloque a pessoa humana e a sua dignidade no centro das decisões, pessoais e comunitárias. E a educação ecológica deixará de ser um verniz epidérmico, para ser um convicto amor à criação, reconhecendo e respeitando, mesmo sem o saber, o projecto de Deus para o Mundo e para o Homem.

O uso dos bens deixará de ser uma expressão desbragada de liberdade feita libertinagem, para ser uma consciência sóbria do que é saudável, um hábito de austeridade que educa e desperta a solidariedade, uma alegre e generosa partilha fraterna, directa ou por forma de uso social dos mesmos bens.

O respeito pelos recursos disponíveis, a sua justa distribuição, a educação para os multiplicar por formas ao ritmo da própria natureza, a procura de muitos outros meios até agora desconsiderados…, abrem portas a uma consciência e vivência da família humana, numa aldeia que é global nas suas fronteiras, mas que subsiste explosivamente “entrincheirada” na diversidade de raças e povos, de estratos sociais abissalmente distantes.

A crise é salutar, se lhe não voltarmos as costas, se dela não nos alhearmos com fenómenos narcóticos, se não nos acomodarmos e consentirmos que venha para ficar.