No passado dia 1 de Junho, Dia da Criança, foi tornada pública a criação da Associação Rede de Cuidadores, que tem como primeiro objectivo contribuir para a prevenção de maus-tratos sobre crianças e adolescentes.
Como a própria palavra indica é Rede e é de Cuidadores. Tem um sentido gregário e solidário. A favor de uma ética da responsabilidade de cuidar. Com enfoque no dia-gnóstico, na prevenção, na intervenção precoce e na disponibilização de respostas personalizadas. Através do reforço da qualidade polinizadora da resposta e não apenas da quantidade. Onde existe um ser indefeso, deve também existir um conhecer, um ajudar, um cuidar. Se existem redes de abusadores, deveremos saber responder com redes de cuidadores!
As pessoas que se juntaram para avançar com este projecto, em boa hora impulsionado por Catalina Pestana e ao qual também me associei de imediato, fizeram-no em nome de um imperativo de consciência, de uma atitude de serviço contra o conformismo e a indiferença, pelo valor da solidariedade e da partilha contra o individualismo e a desconsideração, pela acção e entusiasmo contra a violência do silêncio e pela humanização das situações contra a tecnocracia estatística que é a nova forma de diluir ou banalizar os problemas e de transformar as pessoas em números e algoritmos.
Por outras palavras, esta Associação quer ser parte activa no exercício de uma verdadeira e independente magistratura social. Em nome da essência do bem comum, da centralidade e dignidade da pessoa humana e sobretudo da defesa dos mais fracos e dos que raramente têm voz ou são escutados. Em nome da esperança sempre renovada, da verdade, da autenticidade, da sensibilidade, da decência. Verdade nas análises, autenticidade na acção, sensibilidade na relação, decência entendida como a estética da ética. E porque não em nome da utopia e do sonho que são as únicas aparentes mentiras que podem deixar de o ser pela acção?
Não se está contra ninguém, mas a favor de alguns e algumas. Não se procura competir mas cooperar. Com independência e sentido da proporcionalidade. Fazendo pontes em vez de muros e erradicando o aparente comodismo da ideia de “posta restante social”, onde sempre se corre o risco de uniformizar o que exige diferenciação, de massificar o que supõe proximidade e personalização. Sabemos das limitações e condicionantes das organizações de solidariedade, mas também temos consciência da fragilidade do Estado que não tem competência emocional, nem sabedoria afectiva, e da necessidade de estimular a sociedade tantas vezes envolta ora na cultura do pessimismo castrador, ora da satisfação egoísta. Jamais contemporizamos com insuficiências ou abusos, indultos comportamentais e amnistias morais.
Através da Rede Cuidadores, queremos dizer não à irrelevância do conforto em que hoje tanta gente está anestesiadamente mergulhada. Queremos contribuir para uma justiça com alma e não simplesmente para uma justiça formal, contábil. Queremos expressar a ideia da solidariedade como um valor social e não como uma mera técnica padronizada. Na afirmação inequívoca do princípio da subsidiariedade social tão mal tratado no nosso País. A subsidiariedade não se limita a ser um simples princípio de repartição de competências. É um princípio de liberdade, de iniciativa, de responsabilidade e de harmoniosa hierarquia e subordinação de valores: o ser antes de o ter, a dimensão espiritual e imaterial antes da dimensão física e instintiva, a convivência antes do isolamento, a família antes da cidade e do Estado.
Queremos contribuir para uma combinação tão boa quanto possível entre recursos monetários sempre escassos e não monetários sempre renováveis (tempo, competência, saberes, partilha, solicitude, persistência, lealdade, gratuitidade, etc.). Queremos, por fim, contribuir para a inovação social na abordagem, nos métodos e nas respostas, para uma nova dimensão ética da entreajuda, fomentando a pedagogia do exemplo, da experiencia de vida, do respeito, da compreensão, da equidade entre diferentes gerações e situações, numa simbiose entre voluntariado, experiência, generosidade e profissionalismo.
