A manhã do Dia da Igreja Diocesana contou com 15 grupos de reflexão sobre o último ano pastoral, que, como tem sido amplamente divulgado, pretendeu levar a Igreja diocesana (isto é, as paróquias, os serviços, os grupos, as famílias, os cristãos em geral) a prestar mais atenção aos pobres. “O serviço aos mais pobres é sinal visível e expressivo da verdadeira Igreja de Jesus Cristo”, afirma o lema. Às cerca de 300 pessoas que constituíram os grupos foi perguntado se a temática chegou aos cristãos e se alguma atitude (pessoal, familiar, comunitária, paroquial) mudou. O Correio do Vouga ouviu o plenário e faz ecos da partilha que foi considerada “muito proveitosa” pelo P.e João Gonçalves, que, enquanto vigário para a Pastoral Geral, foi responsável pelos trabalhos.
“Os cristãos têm de se empenhar numa cultura de mudança participativa. É necessário deixar a «cultura do sofá» e abraçar a cultura participativa”.
“Assiste-se a um aumento da pobreza envergonhada – aquela que tem medo de se assumir como tal”.
“Assiste-se a um aumento da pobreza e do consumismo”.
“Lamentámos não ter conhecimento do lema pastoral através do pároco, mas consideramos que os cristãos podem pôr-se em acção por sua própria iniciativa”.
“Os bons exemplos de combate à pobreza têm de ser divulgados. As iniciativas desenvolvidas com jeito e profissionalismo se forem conhecidas podem contagiar outros cristãos”.
“Há grupos no terreno que trabalham na promoção dos mais pobres mas que sentem a falta de apoio da parte dos responsáveis da Igreja”.
“Vivemos uma diocese a duas velocidades. Alguns sectores são exemplares, como a participação dos jovens nas actividades nacionais, outros ficam para trás. Mas não podemos perder a velocidade”.
“O sentido missionário de cada cristão tem de ser despertado. Ser cristão é ser missionário”.
“Os jovens têm um armário de confusão tremenda. Precisam do confronto com os adultos para arrumarem o armário”.
“Nalgumas paróquias verificou-se um aumento na partilha de bens, uma junção de esforços de vários movimentos, uma procura conjunta de novos caminhos pastorais”.
A partir de partilhas expressas no plenário, o Correio do Vouga aprofundou duas iniciativas que quase só foram enumeradas
Economia doméstica para fazer render o dinheiro
Comer uma torrada e beber um galão no café custa tanto como uma semana de pequenos-almoços decentes em casa. Um bolicao de lanche na escola custa mais e não faz tão bem como uma sandes e um iogurte. Foi para divulgar raciocínios simples e directos como estes que um grupo de cristãos de Cacia promoveu uma sessão de economia doméstica, dirigida a pessoas com dificuldades (algumas vivem com o rendimento social de inserção) e a todos os que lidam com as questões da pobreza.
Na promoção da acção juntaram-se movimentos como os vicentinos, a LOC/MTC (trabalhadores cristãos), ou antigos escuteiros. Graciete e Serafim Marques integraram o grupo que “trabalhou a partir da realidade”. Não basta dizer que é possível administrar bem o pouco dinheiro que se tem. É preciso dar exemplos concretos. É isso a economia doméstica. Com o mesmo dinheiro pode-se viver melhor.
A título de exemplo, o casal realça a importância de fazer o “orçamento familiar”. Pais e filhos definem “o que é prioritário”, apontam “despesas fixas e não fixas” e só depois há lugar para o “supérfluo”. Quando assim acontece, sublinha o casal, “os filhos conhecem os limites e não exigem o que os pais não lhes podem dar”. Com o orçamento familiar e participativo os filhos aceitam as “sapatilhas da feira” porque sabem que as de marca rebentam com as poupanças da família.
Escuteiros
Movimento que não quer ser elitista
Manuel Santos, chefe regional do escutismo católico, mostra como as preocupações sociais e a atenção para com os mais pobres são tidas em conta no escutismo. “Em primeiro lugar, procuramos integrar as crianças e jovens que vêm de famílias desfavorecidas. Sabemos que o movimento às vezes é tido por «elitista», afastando quem tem menos posses. Isso não pode acontecer. Se nas cidades, por haver listas de espera, se corre esse risco, nos agrupamentos mais pequenos não existe tal problema. Mas em qualquer caso, nunca se recusam escuteiros por dificuldades económicas”, afirma. Por outro lado, acrescenta que “principalmente nos caminheiros [18 a 22 anos], o serviço aos outros é um pólo educativo”, pelo que os jovens devem prestar voluntariado na comunidade – o que tem sido feito em colaboração com os grupos Cáritas, os vicentinos ou o Banco Alimentar.
Manuel Santos acrescenta ainda que tem desaconselhado aos dirigentes actividades escutistas que “são muito caras”. Incluem-se nestas algumas viagens ao estrangeiro. “Há actividades que podem ser segregacionais quando todas devem ser aglutinadoras”, afirma. “Com menos dinheiro, podemos fazer actividades pedagogicamente mais ricas e para todos” realça o Chefe da região escutista de Aveiro . A luta conta a pobreza e a exclusão também passa por aqui.
TESTEMUNHOS
Todas as gerações no dia da grande família
O Dia da Igreja Diocesana é o grande encontro de todos os cristãos da Diocese de Aveiro. O Correio do Vouga recolheu algumas opiniões pelo recinto do santuário de Vagos.
Gabriel Duarte, de Albergaria
“Vi muita gente, rezei ao Jesus na capela e andei de bicicleta”. A mãe acrescenta que o filho participou na peregrinação das crianças a Fátima, no dia 10 de Junho, como prova o chapéu que traz, e ele afirma que nessa peregrinação gostou muito de ver um “espectáculo sobre a vida dos pastorinhos”.
Maria Olécia, de Santa Catarina (Vagos)
“Costumo vir aqui uma vez por mês a pé. Demoramos três horas desde Mesas (lugar da freguesia de Santa Catarina). É um espaço muito bom por causa de toda esta sombra. Se tivesse de apanhar calor, não vinha. Hoje, o dia é ainda mais importante por ter toda esta gente”.
Mário Paulo, de Aveiro
“Vivo este dia como dia de encontro com todos os que estão ligados aos movimentos e às paróquias, mas também como dia de peregrinação. Este ano, pela novidade, destaco a particularidade da participação das crianças que fizeram a Comunhão”.
Gonçalo Almeida, de Anadia
“Vive-se este dia com muita alegria. A participação dos jovens podia ser maior. A Diocese é grande. Vêem-se alguns de Vagos, mas poucos dos outros arciprestados. Fui apresentado como um dos jovens que vão a Taizé. Vou pela terceira vez. Lá recupera-se energia para mais um ano com outra força e motivação”.
