A consciência de que podemos viver “segundo a carne” ou produzir as “obras do Espírito” não é, de forma alguma, uma expressão de maniqueísmo. Essa é uma clara experiência de quem é honesto. Deixamo-nos, muitas vezes, encantar por felicidades imediatas, sob os apetites da natureza humana caduca, que nos deixam ao fim as mãos vazias. Quando temos a coragem de dar lugar aos valores espirituais, não deixamos de procurar fruir o bem-estar, mas pomos a nossa felicidade em metas muito mais nobres, de horizontes infinitos, essas sim libertadoras.
Estão à porta as férias! Com paraísos anunciados para todos os gostos: o sol, o spa, o fitness, as paisagens de sonho, a distracção programada por outros, o bar, a discoteca… Uma voragem de solicitações e atenções aos apetites, aguçados por ardilosas publicidades, que não deixam pensar, que criam necessidades inexistentes, que alucinam mesmo…
Depois, é o regresso na desilusão: carteira vazia, espírito a vaguear nos sonhos, angústia pelos paraísos perdidos, confusão no retorno à vida, incerteza de um futuro empobrecido com os gastos não calculados… Distraíram-se, mas não se divertiram; não se libertaram!
Quem vive do Espírito, pensa e programa, avalia criticamente as necessidades e as possibilidades, olha as propostas, esventra-as para lhe conhecer os valores, cria “roteiros” próprios, constrói a diversão que liberte e enriqueça… Senta-se a calcular se vai poder levar por diante os seus anseios e com que custos, não venham a rir-se os seus amigos e vizinhos diante de desejos tornados frustrações. Sobretudo, não se vende a urgências fictícias; treina a sobriedade.
Quem vive do Espírito, desenha as suas férias olhando para si e para os outros: da família, vizinhos, irmãos de todas as classes e raças. Procura o que o alivie e tonifique, de preferência com efeitos colaterais positivos sobre os demais: mais tempo dedicado aos fragilizados – familiares idosos, crianças (talvez filhos!) para quem ao longo do ano não houve a disponibilidade desejada, emigrantes que precisem de apoio de integração, tantas formas de voluntariado social libertador…; roteiros de acrescento cultural, convívio com outras mentalidades; reforço de tonificação espiritual – oração, leitura, celebração mais tranquila e profunda…
“À volta, virão a cantar, trazendo os molhos de espigas” – poderíamos dizê-lo – com o coração cheio de experiências felizes, com a consciência perfumada de valores acrescentados, com a serenidade alcançada por um repouso em ocupação diversa. Isto é: divertiram-se, sem se alienarem; aprimoraram o espírito e sentiu-o o corpo em renovadas energias… Vêm da festa, de rosto erguido e sorriso aberto, prontos para travarem um ano de novas batalhas!
