A Árvore de Zaqueu DOMINGO DE PÁSCOA – Ano C
Todos os grandes acontecimentos começam nos cenários comuns da nossa vida. Se não fosse assim, não significariam nada para nós.
O pior de muitas «disposições superiores» é verificarmos que não vêm ao encontro da gente. Por outro lado, há uma espécie de preguiça que nos impede de ir ao encontro do que é bom (o que, muitas vezes, passa por ir ao encontro do mal para o erradicar).
O Domingo de Páscoa começou num cenário de tristeza e ternura: cuidar dos restos mortais de Jesus – aquele homem que não se sabia bem por que razão vivera e morrera, e que tanto «mexera com a gente».
Iam ao encontro de uma memória, ao encontro das saudades, ao encontro de uma pergunta no ar (sem dúvida que semelhante à pergunta que fazemos quando alguém muito querido nos morre).
Não encontrar o que procuramos é sempre angustiante. Porém, mais importante do que não se encontrar o corpo de Jesus é o facto do cristianismo não girar à volta de um monumento funerário (o culto do sepulcro é muito posterior).
Quem ia à procura do corpo de Jesus, só encontrou novas questões: o que é que teria acontecido? E por que é que aconteceu?
Os discípulos mais chegados começaram a lembrar e a relacionar o que conheceram de Jesus, com a ajuda da riquíssima tradição religiosa do judaísmo. E assim se dispuseram a encontrar quem de facto era Jesus Cristo – um encontro nunca definitivo, que se torna mais intenso e diversificado ao longo da vida de cada qual e da longa história de todas as vidas.
O túmulo vazio reviveu a antiga e confusa ideia de que Jesus voltaria para instaurar o reino de Deus; a sequência dos «encontros» purificou o sentido de «reino de Deus» e de «ressuscitado» (nem o Novo Testamento fala de cadáver ressuscitado, de um espírito ou fantasma: apresenta uma figura humana real, mas que nem é fácil de reconhecer, como se pode ver nos episódios de Maria Madalena e dos discípulos de Emaús). E pelos tempos fora, muita luz e muitas sombras foram lançadas sobre a questão central – o significado da vida de Jesus.
Por isso é que o «domingo de Páscoa» é a matriz de todos os domingos: são um tempo para os encontros com a Vida. Vida que é simbolizada na alegria de festas vistosas e de bom gosto, mas que deveria ser sobretudo vivida na continuação do gesto familiar da «última ceia», como quem se senta à volta da mesma mesa.
(Os domingos tornaram-se demasiado um teatro, e mesmo este só pretensamente interactivo, com deixas que não vão ao encontro da vida).
A vida e morte de Jesus revelou a vida como projecto divino, um bem sempre ameaçado e sempre a defender, e que afinal não termina com a morte: um projecto onde todos os dramas, aventuras, momentos de prazer ou de tristeza… se passam num ambiente familiar. Onde é possível tratar a Deus como Pai, com quem se discute e pede conselho sobre o que é a justiça, e a quem se pede uma «ajudinha» para fazermos com que não falte «o pão de cada dia», para superar os desencontros de uns com os outros, e para que nos ajude a sério a ver onde está o mal.
Porque a vida é um tempo de encontros…
Manuel Alte da Veiga
