LUÍS FILIPE SANTOS
Bento XVI proclamou um “Ano Paulino” (AP), para celebrar os prováveis 2000 anos do nascimento de São Paulo. O AP teve início na Solenidade dos Apóstolos Pedro e Paulo, a 29 de Junho de 2008, e termina um ano depois. O Correio do Vouga reproduz a entrevista da Agência Ecclesia a D. Anacleto Oliveira, Bispo Auxiliar de Lisboa e responsável pelo itinerário catequético, proposto pela Conferência Episcopal Portuguesa.
Tendo Paulo como guia, o itinerário proporciona um conhecimento mais profundo do Apóstolo e faz percorrer, durante 52 semanas, as principais etapas do caminho cristão.
LUÍS FILIPE SANTOS – Com o Ano Paulino iniciado, conseguimos descrever quem foi o Apóstolo Paulo?
D. ANACLETO OLIVEIRA – Em duas palavras, é muito difícil definir quem foi este personagem. No entanto, podemos dizer que, de todos os apóstolos, foi aquele que mais contribuiu para a fundação e expansão da Igreja e do cristianismo.
Um apóstolo fulcral que deixou uma Teologia difícil e com alguma novidade?
A maior novidade reside na atribuição – contribuição – para que a figura de Jesus Cristo ganhasse a dimensão universal que já estava inerente à sua própria figura. Paulo deu um contributo fundamental para que o cristianismo – sem perder as suas raízes judaicas – fosse espalhado a todos.
Paulo foi o apóstolo do querigma (anúncio) ou do aprofundamento da mensagem?
Das duas coisas… é impensável uma sem a outra. O querigma era comum a todos, mas o que é característico dele – situa-o logo na sua vocação – é o anúncio do Evangelho aos pagãos. Vem expresso claramente na «Carta aos Gálatas», quando escreve a sua vocação e diz que foi eleito para anunciar o Evangelho aos gentios.
Tudo começou na estrada de Damasco… Um local simbólico?
Os «Actos dos Apóstolos» exploram essa dimensão. Este livro do Novo Testamento descreve o cristianismo como uma expansão e usa muito o símbolo do caminho. Já o Evangelho de S. Lucas relata Jesus a caminho de Jerusalém… E depois a expansão do cristianismo à sua dimensão universal. A ida para Damasco caracteriza a caminhada de Paulo. Daí para a frente foi uma caminhada incansável.
Sendo o cristianismo um caminho, Paulo foi um principais desbravadores desse caminho.
S. Paulo, mais do que dar um sentido a esse caminho (isso é comum a outros escritos no Novo Testamento), realizou isso que estava inerente à dimensão de Cristo como caminho. O próprio Evangelho de S. João desenvolveu-se nessa perspectiva: o cristianismo de S. João começa na Palestina e expande-se… Aliás, pensa-se que há uma relação muito próxima entre as comunidades joaninas e as comu-nidades iniciais (os «Actos dos Apóstolos» chamam-lhe de helenistas).
No entanto, Paulo foi um apóstolo diferente porque não caminhou com o Mestre.
O grande momento da sua vida não foi o acompanhar Jesus durante a sua vida pública, mas a aparição de Cristo Ressuscitado. Neste aspecto há uma base comum entre os outros apóstolos e S. Paulo. Ele teve adver-sários durante toda a sua vida e al-guns quiseram negar-lhe a sua con-dição apostólica. Ele defende-a com base na aparição de Cristo Ressusci-tado. E diz com frequência que não fica nada atrás dos outros. Com uma certa ironia, chega a dizer que trabalhou mais que os outros.
Como biblista, acha que ele trabalhou mais que os outros?
É muito difícil porque não temos dados históricos sobre os outros. O Novo Testamento, neste aspecto, deixa-nos um vazio. Não se pode comparar… Mas, no Novo Testa-mento, ele aparece a fazer mais do que os outros. Historicamente, não o podemos afirmar.
É o apóstolo da luz?
Ele utiliza muito a simbologia da luz. S. Lucas explora isso muito na descrição que faz da aparição de Cristo Ressuscitado. O próprio S. Paulo – concretamente na II Carta aos Coríntios – apresenta a sua conversão e vocação com a imagem da luz.
Sem esquecer o lado guerreiro. Na iconografia aparece muitas vezes com uma espada…
Isso são aspectos iconográficos, mas ele foi um homem de combate. Durante toda a sua vida, ele combateu contra tudo e contra todos. Até combateu contra os cristãos. O resto da sua vida apostólica foi um combate contínuo contra as contrariedades (sobretudo dos judeus e pagãos). Mesmo dentro do cristianismo teve muitos adversários, inclusivamente figuras de proa. S. Tiago foi declaradamente uma figura adversária de S. Paulo. Desse conflito entre eles fez-se luz… S. Pedro também teve problemas com S. Paulo e chegaram a cortar relações. Não existia coincidência, mais no modo de agir do que, propriamente, no modo de pensar. S. Paulo passou a vida inteira a combater. E acabou por ser vítima desse combate, morreu por causa disso.
Pedro não secundarizou a figura de Paulo?
Ao longo da história do cristianismo, de certo modo sim. Depois da morte dos apóstolos houve, de facto, um movimento dentro da igreja no sentido de unir as duas figuras. No final do século I aparecem as duas figuras juntas. S. Clemente Romano faz uma referência clara aos dois juntos, aos dois no próprio martírio. Foram duas figuras fundamentais na base do cristianismo. No entanto, inicialmente, o leque era mais alargado. Pensa-se que havia pelo menos quatro correntes na visão do cristianismo. De certo modo, Pedro e Paulo encabeçavam as duas correntes centrais. Estas impuseram-se e as correntes mais laterais acabaram por desaparecer. Com o desenvolvimento do cristianismo, muitas delas deram em heresia.
Nos tempos que correm é fácil ou difícil dialogar com a Teologia Paulina?
Estou convencido que é fácil. Pelo menos, no livro, procuro facilitar os contéudos de Paulo. As cartas de S. Paulo são extremamente densas e são difíceis de compreender.
Nota-se que o pensamento de Paulo sofreu uma evolução o que torna a compreensão mais difícil. Aliás, a própria II Carta de S. Pedro – pensa-se que foi o último escrito do Novo Testamento – diz que as Cartas de S. Paulo são difíceis de entender. Na altura, já davam azo a interpretações diversas e, nalguns casos, opostas.
“Estudei São Paulo para compensar uma lacuna na minha formação”
O autor deste livro é um apaixonado pela Teologia Paulina?
Muito. Tudo começou por causa de uma falha na minha Formação Teológica, em Portugal. Não tive esta cadeira. Senti a necessidade de compensar esta lacuna e, em Roma, tive oportunidade de aprofundar a Teologia Paulina. Quando fiz a tese de doutoramento – entre os diversos temas sugeridos – apareciam dois ou três de S. Paulo. Não tive dúvidas e agarrei um deles. Foram dez anos de estudo sobre S. Paulo. Sei que estou marcado por ele. Felizmente.
Que fase da vida de S. Paulo o marcou mais?
Foram todas. Não podemos estudar uma fase isolada. A minha tese de doutoramento foi ao âmago de S. Paulo. Tratou da noção de apostolado em S. Paulo sobre uma dupla nomenclatura: a diaconia da justiça e noutro lado a diaconia da reconciliação. Aí, ele expõe a sua conversão e a sua vocação. Durante o meu estudo debrucei-me mais nas cartas Protopaulinas. Após a conclusão do doutoramento comecei a debruçar-me mais nas Deuteropaulinas.
Então é um bispo mais Paulino e menos Petrino?
Não. A figura de S. Pedro é muito simpática. Quando havia desacordo entre eles, S. Paulo trata-o de forma violenta, quase ofensiva. No entanto, Paulo também apresenta Pedro como uma figura de referência.
