Guia para o Ano Paulino

LUÍS FILIPE SANTOS – Passados dois mil anos, Paulo está novamente no centro das atenções e surge o livro «Um Ano a Caminhar com S. Paulo» de sua autoria. Como podemos caminhar com S. Paulo?

D. ANACLETO OLIVEIRA – O livro apresenta uma série de encontros com Paulo. Estes encontros poderão fazer-se em grupo ou individualmente. O objectivo é ajudar as pessoas a dialogarem com S. Paulo. Em cada um destes encontros há sempre uma palavra de Paulo. O resto gira à volta deste texto e foca os problemas que ele tratou nas suas cartas.

Quando fala das Cartas refere-se às Protopaulinas ou Deuteropaulinas?

Das duas …. (Risos) Todas elas têm as suas dificuldades. Mesmo as cartas Deuteropaulinas (discutíveis) também são densas. Algumas delas, até se duvida se são cartas. Muitos afirmam que a Carta aos Efésios é uma mensagem, homilia ou sermão.

As viagens Apostólicas também tiveram influência nos seus escritos. Ele ali bebeu outras culturas?

Sim. Nas cartas Protopaulinas (indiscutíveis) não há uma diferença tão grande. Há um estilo comum e uma maneira semelhante de tratar os problemas. A diferença maior está entre as Protopaulinas e Deuteropaulinas. Há visões diferentes da Igreja. Ao falar do Baptismo, na Carta aos Romanos, Paulo fala da Ressurreição como um dado futuro. Na Carta aos Colossenses e na Carta aos Efésios, diz que os cristãos no Baptismo já ressuscitaram.

Este «caminhar com S. Paulo» é gradual?

Não. São 52 encontros mais um. O último não vem numerado… São 52 porque são 52 semanas. A estrutura geral do livro, tal como os encontros, está relacionado com a vida cristã. Começa com uma série de encontros que designo como auto-biográficos (16 encontros onde S. Paulo nos fala de si próprio)

Os «Actos dos Apóstolos» falam mais dele do que Paulo dele próprio?

Os «Actos dos Apóstolos» apresentam, mais dos que as cartas, os dados externos da sua própria vida. O cerne e o centro da sua vida estão mais nas cartas. Não nos podemos esquecer que as suas cartas são escritos de circunstância. Ele não escreveu a pensar nos leitores de hoje.

No entanto, passados dois mil anos, o conteúdo das cartas ainda é actual?

Perfeitamente. No livro pretendo fazer essa ponte. Elas continuam a ser a base da catequese. O livro tem mais quatro partes que procuram acompanhar os cristãos nos diversos componentes da sua vida.

O livro não anda ao ritmo do Ano Litúrgico?

Não é possível fazer isso. Dá a liberdade às pessoas de começarem quando quiserem e por onde quiserem.

As temáticas estão descontinuadas?

Há temas que têm continuidade. Quando ele fala da sua actividade missionária e da Igreja como imagem do Corpo de Cristo, as te-máticas têm continuidade.

É um guia que ajuda a compreender a Teologia Paulina?

O livro é uma tentativa de tornar presente para o mundo de hoje a mensagem que S. Paulo escreveu há vinte séculos. Tem muitos dados informativos, mas também muitas interpelações aos cristãos de hoje. Nas catequeses ou encontros apare-cem muitas perguntas….

E faz também sugestões de leitura… Nota-se que indica muitos salmos. É intencional?

É. Os salmos são muito ricos: de louvor, de esperança e prece.

Nota-se que Paulo foi uma figura polémica.

Criou polémica toda a vida. Como era extremamente inteligente e com formação académica, tinha uma grande visão. Via ao longe. Via aquilo que os outros não viam. Esbarrava com aqueles que não tinham essa visão, mas queria a unidade da igreja. Ele entrava em conflito quando lhe tocavam naquilo que para ele era sagrado: o Evangelho e a figura de Cristo.

Era também multifacetado no agir. Trata problemas iguais de forma diferente?

Sim. O conflito entre ele e S. Pedro em Antioquia – a questão das refeições em comum entre cristãos vindos do paganismo e cristãos vindos do judaísmo – é exemplo disso. Dá respostas diferentes.

Quando se fala da «Nova Evangelização» e do novo ardor missionário era fundamental que os cristãos olhassem para a figura de Paulo?

Não há dúvida. O tempo de hoje e o tempo do cristianismo nascente tem muitas coisas em comum. A visão de Paulo e os métodos de evangelização que ele usou – sobretudo o ardor missionário – tem uma actualidade tremenda.

Não serão estas celebrações jubilares apenas balões de oxigénio?

Não. Os anos jubilares são marcas e deixam marcas. Este ano jubilar tem como objectivo despertar os cristãos para uma fonte e energias de nova evangelização.

Um ano que desperte também os cristãos para lerem mais a bíblia…

Ainda há muita gente que não tem a leitura da Bíblia como um elemento constituinte da sua vida cristã.