Um projecto que parou ou um propósito esquecido?

Num documento que pretendeu marcar o ritmo da Igreja para o terceiro milénio, João Paulo II, ao falar da necessidade e das exigências de uma espiritualidade de comunhão, disse textualmente: “Depois do Vaticano II já muito se fez nomeadamente quanto à reforma da Cúria Romana, à organização dos Sínodos, ao funcionamento das Conferências Episcopais; mas certamente há ainda muito que fazer para valorizar o melhor possível as potencialidades destes instrumentos de comunhão, hoje particularmente necessários, tendo em vista a exigência de dar resposta pronta e eficaz aos problemas que a Igreja tem de enfrentar nas rápidas mudanças do nosso tempo” (NMI 44).

A justeza destas palavras parece estar a esquecer-se ou, então, o projecto parou, não se sabe se por inércia, se por interferência de quem parece não ter entendido ainda nem a razão de ser da Igreja, como serviço ao Povo de Deus e ao mundo a evangelizar, nem os sinais dos tempos, tão eloquentes e exigentes no estímulo a caminhos novos, que não se compadecem com demoras.

Sempre se disse que a Igreja Católica, pela sua longa história e pelos atrelados que foi juntando, é uma máquina pesada e ronceira. Quando se reflecte e decide tendo em conta a universalidade de povos e das culturas, onde a Igreja está implantada, nunca a rapidez é o critério mais exigente, porque a compreensão e a defesa da unidade, num contexto necessariamente plural, pede ponderação e cuidado. Mas, para muitos casos em que a solução urgia, houve sempre mecanismos jurídicos mais rápidos como o direito missionário, os poderes especiais dos delegados pontifícios e até dos bispos diocesanos quando o acesso a Roma não tinha as facilidades de hoje.

Agora, porém, parece que estamos a voltar a um centralismo que esquece o espírito e orientações conciliares e menospreza a esperança de João Paulo II. Quando tudo parece mais fácil de resolver, mais escandalizam as demoras de solução de problemas reais ou, pelo menos, a devida explicação das mesmas demoras.

A meu ver, bastaria que se desse maior atenção e se outorgasse mais poder, como será sempre de esperar, às conferências episcopais de cada país e muitas coisas melhorariam. Também estas teriam de sentir, como é óbvio, as normais exigências efectivas da comunhão eclesial, sem o que não se evitaria o peso de novas burocracias paralisantes.

Se são muitas as expressões a pedir consideração rápida, há sempre casos que se podem considerar gritantes, como a demora de prover dioceses sem bispos desde há meses. O papel e missão do bispo são essenciais na vida da Igreja diocesana. Quem não foi bispo diocesano não entenderá facilmente esta exigência, que não é meramente nem principalmente administrativa.

O Vaticano II deixou clara a missão do Bispo na Igreja que lhe é confiada. Se já não se entende este recente vai vem de nomeações para outras dioceses de bispos que mal ficaram a conhecer a diocese onde estavam, menos ainda se entende que passem meses sem que as dioceses sem bispo sejam, como têm direito, pelo menos informadas.

Se se trata de uma substituição que só se dá com a entrada do novo bispo, não raro ocorre a sensação de orfandade e de menosprezo. Não se pode pedir a um bispo que sai para outra diocese, onde para ele tudo começa, que continue a acompanhar a diocese de onde saiu, até que chegue o seu sucessor, que nem se sabe quem é, nem quem será.

Os estragos perdurarão. Nem seria difícil encontrar soluções eclesiais e pastorais válidas. Bastava que os decisores estivessem perto dos problemas, o que não acontece, nem na distância, nem nos afectos. As palavras de João Paulo II são, portanto, actuais.