Destino: a PAZ

Entre comigo no eléctrico, um dos meios de transporte de Estrasburgo, rumo a seis destinos, numa breve viagem por algumas das minhas lembranças dos dez dias em que participei nas comemorações do 50º aniversário das Jornadas Internacionais Francófonas, da responsabilidade do Lions de França.

Destino: 75 países – Dos cerca de 700 participantes, as duas únicas portuguesas encontram alguns falantes de língua lusa: 20 brasileiros, uma húngara e uma austríaca. Engraçado foi conhecer Kimera Nunes, indiana de perto de Damão, que nos informou que na sua região há vários apelidos como Correia, Melo, Silva e Sousa.

Nesta paragem, há tempo para as apresentações dos países. Desde danças típicas com trajes tradicionais a filmes turísticos, passando por um minuto de silêncio pelas crianças palestinianas, mártires da guerra, até objectos tradicionais, slides, canções, cartazes, várias são as maneiras de conhecermos os povos. Descobrimos que as cores e desenhos tradicionais de países tão distantes como o México e a Hungria são os mesmos ou semelhantes; as danças dos povos de África, da América do Sul e da Austrália têm vários elementos em comum. E é muito bom verificar que, através da dança e do canto, e apesar de tantos problemas e conflitos, em países como a Índia, Israel, a Síria, a Turquia, é possível acreditar na paz.

Destino: Conselho da Europa – Palácio dos Direitos Humanos – Aqui, contactamos com as características do Tribunal dos Direitos Humanos (DH) e com o tipo de assuntos sobre os quais delibera. Neste momento, à espera de serem julgados pelo Tribunal, que se rege pela Convenção Europeia dos DH, estão cerca de 80 000 casos, destacando-se a Rússia e a Roménia com o maior número de assuntos. A chave é a formação dos advogados e das polícias, sobretudo nos países que estão a construir a sua democracia, ouvimos dizer.

Destino: Parlamento Europeu – No Hemiciclo, ficamos a saber que a bandeira azul com 12 estrelas (simbologia do 12: tribos de Israel; apóstolos; signos do zodíaco; meses) data de 1955, antes da criação da CEE (1957), e só em 1986 foi tomada a decisão definitiva de fazer da bandeira da Europa a bandeira da CEE, hoje UE. O mesmo se passa com o Hino da Alegria, cantado em 1959, no Conselho da Europa, e só depois transformado em hino da UE. Ouvem-se questões levantadas por cidadãos da Macedónia, Síria, Turquia e Ucrânia e as respostas dadas, sobretudo no sentido de propor a formação de cada indivíduo, indicando a urgência da paz. A uma afirmação relativa à forma de se construir a paz – “Prepara-se a paz, preparando-se a guerra” – o deputado do Parlamento Europeu responde ser essa uma maneira antiquada de pensar. Para ele, a democracia, os valores e a paz “exportam-se” pela formação e pelo exemplo, nunca pela imposição.

Destino: Memorial de Schirmeck – Bem-vindos ao Memorial da Alsácia-Moselle, onde se pretende compreender o passado para construir o futuro. Vamos conhecer de perto a história dos habitantes desta região, que mudaram quatro vezes de nacionalidade, entre 1870 e 1945, devido aos conflitos entre a França e a Alemanha. Mas é sobretudo o período da Segunda Guerra Mundial, em que a região sofreu a anexação alemã e a influência dos nazis, que mais impressiona. As pessoas viram os seus nomes próprios e nomes de família traduzidos de francês para alemão, o mesmo sucedendo à toponímia; os cartazes da pro-paganda nazi invectivavam à colaboração. Continuamos a percorrer as salas do Memorial, com informação sobre a reconciliação franco-alemã e a construção europeia. E, porque a memória não pode morrer, terminamos a visita com um filme chocante sobre os conflitos que sucederam à Segunda Guerra: de alguns já nos tínhamos esquecido, outros acontecem ainda Hoje.

Destino: Jardim das duas margens – Porque a história é feita de reconciliação e de vontade de paz, estamos, agora, na ponte que une a França e a Alemanha. Dois actos simbólicos marcam esta jornada: uma largada de balões e a plantação de um cedro do Líbano, originário do país que lhe dá o nome e que o representa na sua bandeira. Levada pelos participantes dos diferentes países, a terra que envolveu o cedro foi abençoada por uma chuva torrencial, que nos fez correr para debaixo dos guarda-chuvas, numa mistura de risos de várias nacionalidades.

Destino: Catedral de Estrasburgo – Aqui, sugerimos um tempo forte de meditação. Textos e canções, lidos por crentes e não crentes, entoados por um coral de uma centena de pessoas de 31 nacionalidades, propõem a paz como valor universal. Ateus, hindus, muçulmanos e cristãos proclamam poemas que irmanam a todos nos ideais da verdade, justiça, dignidade e amor.

O momento mais marcante da minha semana em Estrasburgo é a confidência de um senhor de 90 anos, ao lado de quem me sento no final da celebração. Ex-combatente da Segunda Guerra, refugiara-se em Portugal, antes de ser integrado por De Gaulle na aviação inglesa. Emocionado, emociona-me, quando me diz que foi pela paz que lutou e que tem esperança nas pessoas que ali partilham o desejo da paz.