Partiu o Padre Leonardo

A caminho dos 86 de idade e dos 62 de ordenação sacerdotal, partiu para o Pai, na manhã do dia 2, o Padre Leonardo, como sempre se intitulava, mas de todos conhecido como o senhor dr. Leonardo.

O Anuário Diocesano tem apenas, por debaixo do seu nome, “Confessor na Catedral de Aveiro”, e indica, a seguir, a sua residência de sempre, o Seminário. Foi, também, aqui o lugar da sua segunda vocação, o ministério do amor misericordioso de Deus.

“A minha vida é um mistério”, desabafou dias antes comigo, durante o almoço que nos tinha lado a lado e, nesse dia, apenas só nós os dois. Antevia próximo o seu fim. Falou da vontade de partir para a eternidade, das suas últimas vontades já exaradas e de quem as testemunhara, da sua família. Nesse dia a sua voz estava mais clara. Falou ainda do desígnio de Deus que o escolheu para ser mediador do seu perdão e da sua misericórdia.

Comovido, recordei-lhe o que ele próprio dizia tantas vezes aos penitentes: “Somos de Deus, a Ele pertencemos”.

Confessor toda a sua vida! Um segundo chamamento, a que respondeu sempre com inexcedível generosidade e fidelidade, sem olhar a trabalhos e a dificuldades. Era a expressão do pêndulo, num bater sempre certo. Chovesse ou nevasse, depois de celebrar, pela manhã, a Eucaristia com a comunidade das Irmãs do Amor de Deus que, desde início, servem no Seminário, ele aí ia, sempre a pé, porque assim queria, a caminho da Sé, para exercer, modelarmente, o ministério de confessor. Era este o seu trabalho diário desde há mais de cinquenta anos, depois que uma queda inesperada, pelas escadas do novo Seminário, ainda em obras, lhe veio mostrar que o exercício do seu sacerdócio teria, após a recuperação possível, o compromisso diário do ministério do perdão de Deus, no sacramento da Reconciliação.

Um curso universitário brilhante, com licenciatura em Direito Canónico na Universidade Gregoriana, em Roma, os projectos de Dom João Evangelista de Lima Vidal, que o mandara estudar e o colocara no Seminário, porque assim o exigia a Diocese, apenas com oito anos e a precisar de padres preparados para as muitas exigências pastorais de quem começa de novo, a justificada esperança colocada no novo sacerdote, logo então, e apesar de tudo isto, Deus mostrou que não iam por aí os seus caminhos, nem os seus planos.

Milhares de cristãos, da Diocese e de fora, passaram, ao longo do ano, pela catedral de Aveiro. Sabiam que encontravam aí. Tanto o meu antecessor, o Senhor D. Manuel, a quem o ouvi muitas vezes, como eu próprio, pudemos testemunhar a gratidão de gente que nos falava e agradecia o trabalho de confessor do Padre Leonardo. Gente que não o conhecia, que passou por Aveiro, entrou na Catedral e sentiu que Deus lhes marcou encontro regenerador…

O processo, então justificadamente doloroso, rumou, providencialmente, noutro sentido em que até as sequelas do grave acidente ajudaram o seu serviço apostólico. Não se entendia muitas vezes o que dizia, mas eram sempre eloquentes e convincentes, a sua vida, o seu testemunho, a sua fé, o seu acolhimento.

No dia 1, parecia incontida a sua ânsia de partir. Manifestou-a a muitos e também a nós, os bispos de hoje e de ontem, que o visitamos depois do almoço. E Deus fez-lhe a vontade.

O património mais válido e verdadeiro da Igreja são as pessoas que, servindo Deus, sem condições, servem os outros, sem cansaços.

O trabalho do Padre Leonardo é, por demais, necessário e urgente. Todos o sabemos. Quem o vai continuar?

D. António Marcelino