O P.e Paulo Cruz, pároco da Costa Nova e da Barra, e o doutor Domingos Peixoto, professor de Música do Conservatório e na Universidade de Aveiro, dirigem a EDMUSA – Escola Diocesana de Música Sacra de Aveiro. Com eles integram a direcção Celina Martins (comunicação, organização das turmas), Tiago Matias (coordenação da formação juvenil) e Margarida Pina (tesoureira). Funcionando há cinco anos, a EDMUSA está a lançar novas iniciativas de formação, nomeadamente um curso sistemático e a formação juvenil, esperando em breve ser constituída como entidade jurídica. Entrevista conduzida por Jorge Pires Ferreira.
CORREIO DO VOUGA – Que ba-lanço fazem destes cinco anos de trabalho da Escola Diocesana de Música Sacra – EDMUSA?
P.E PAULO CRUZ (PC) – A EDMUSA começou em 2005, mas já havia uma experiência anterior de 10 anos (1994-2004), ligada ao ISCRA, que de certa forma acabou em fracasso, pois estava muito fechada e os alunos foram diminuindo. Descobrimos depois esta modalidade itinerante que possibilitou uma divulgação maior, mais leve e mais alargada. Um primeiro objectivo da itinerância foi descobrir gente nova que pudesse dar corpo ao novo projecto de formação sistemática.
DOMINGOS PEIXOTO (DP) – A Escola de Música Sacra começou em 1994 com um modelo tradicional: aulas todas as semanas, plano de estudos organizado, etc. Depois, chegou-se à conclusão de que o modelo dificilmente subsistiria. Era preciso fazer um trabalho de base, ir ao encontro de pessoas que estão no terreno, coralistas, sal-mistas, directores de coro e organistas, e dar a formação possível, compatível com compromissos familiares e profissionais. Este trabalho permitiu que se retomasse o mo-delo primitivo do curso sistemático, de 1994, com maior exigência, para, em simultâneo, funcionar o curso livre (itinerante), que é a base de sustentação e de divulgação.
Em cinco anos, quantas pessoas receberam formação?
PC – Chegamos a ter 100 inscrições por ano. No ano passado tivemos cerca de 60 nesta formação a que chamamos curso livre. É uma formação muito leve: uma tarde semanal, ao sábado, e formação musical nas salas do CUFC.
Neste modelo de formação itinerante, por quantas paróquias passaram as aulas?
PC – O primeiro critério para a itine-rância é o da qualidade. Privilegiámos paróquias que tenham o instrumento-rei da música litúrgica, o órgão de tubos. Começamos e acabamos o ano nas paróquias da Barra e Costa Nova. Por serem paróquias de praia, têm um ambiente mais propício para o início e final de ano. Mas há outras adequadas como Calvão, Vagos, Albergaria, Santa Joana, Murtosa…
DP – Há dois anos quisemos percorrer todos os arciprestados. Mas ir a uma paróquia de que não temos inscritos torna difícil a organização.
Esses momentos nas paróquias também são importantes para as comunidades?
PC – Quando vamos a uma paróquia, entramos no ritmo normal. A participação na Eucaristia vespertina é o momento alto do encontro. Por vezes o pároco pode não dar o devido realce. O trabalho dos sábados, nas paróquias, tem momentos com os coros paroquiais, mas estes nem sempre estão presentes.
DP – Nós temos um objectivo ideal e um grau de concretização que não chega lá. Queremos que a ida a essa paróquia seja para celebrar e partilhar, mas nem sempre conseguimos.
No próximo ano, a EDMUSA vai avançar com formação para jovens. Como?
DP – Temo-nos dedicado ao coro tradicional e não temos ido ao encontro dos grupos de jovens, que também animam as cele-brações paroquiais. Ora, queremos abrir a formação a esses grupos, criando um grupo vocal e instrumental que possa assumir a itinerância, à semelhança do que fizemos nos últimos cinco anos com o coro tradicional.
Como conciliar a qualidade litúrgica com o gosto dos jovens? Não será, à partida, uma tarefa difícil?
DP – Pretendemos que os grupos de jovens tenham uma formação que os ajude a fazer bem aquilo que já fazem. Não vamos intervir directamente nos cânticos que escolhem. Vamos dar formação para que façam melhor e de maneira mais digna o que já fazem. Será uma formação leve – sessões mensais de intercâmbio e formação –, percorrendo paróquias da Diocese e com uma ligeira revisão do plano de estudos em cinco anos que permita a inclusão dos jovens. Como há um instrumento que é imprescindível, foi incluída a disciplina de Guitarra.
PC – Estamos conscientes de que no terreno podemos encontrar barreiras. A escola tem de dar as ferramentas e os critérios para se fazer bem. Na questão da escolha dos cânticos, a escola vai propondo coisas novas. É impossível chegar e dizer: “Isto não se canta, aquilo não tem qualidade”. E depois? Se não têm mais nada para cantar? É importante ir propondo coisas novas para o reportório se alargar…
Esperam se faça uma espécie de selecção natural nos cânticos juvenis…
PC – Sim. À medida que se vai experimentando e falando com o coro e com os jovens, vão-se afinando critérios. Vamos analisar os textos e pensar se, de facto, a mensagem que estamos cantar é rica ou pobre, se está bem escrita, bem traduzida, se tem uma verdade plena. Por vezes usam-se músicas intimistas que não se enquadram no momento. Mesmo um cântico litúrgico não cabe em qualquer momento. Um cântico de quaresma não é para o tempo Pascal. O termo “litúrgico” pode ser uma palavra intimidatória, mas no fundo acaba por ser um despertar para que, diante de critérios, os jovens encontrem o melhor possível. A escola tem essa missão; ajudar a encontrar critérios e alternativas.
DP – A Escola não tem uma função normativa. A escola não dá leis, dá formação. A formação, por si, irá criar critérios de selecção e de exigência que fará vir ao de cima a qualidade em qualquer género de música. Mas são os jovens que vão pensar nisso. E uma coisa é certa: faça o que fizerem, com formação, farão melhor.
De um modo geral, a formação musical dos portugueses é muito baixa. A EDMUSA sente esta dificuldade?
DP – Esse é o problema comum, o baixo nível da cultura musical dos portugueses. Há lacunas tremendas em Portugal, que não se verificam na generalidade dos países Europeus. Não há formação coerente nem incoerente. Há umas brincadeiras no primeiro ciclo, a fazer de conta que é música; há a formação musical no segundo ciclo e acabou. Depois, só como opção, se a escola estiver disposta a oferecer. Esta carência reflecte-se em tudo e também na Igreja. Há uma boa dose de analfabetismo musical nas nossas comunidades. Por isso, o músico é uma figura incómoda. Toda a gente reage se ouvir uma leitura mal feita. A alfabetização permite reagir a esse tipo de erro. Com a música, infelizmente, passam “cobras e lagartos”: textos mal cantados, desafinações, entoações mal feitas, maus acompanhamentos no órgão. Os músicos reagem a esses erros. A EDMUSA tenta contrariar o analfabetismo musical e criar uma sensibilidade para corrigir esses erros e que alerte para que os erros não existam na celebração.
A escola tem tido apoio dos restantes organismos pastorais?
PC – O ideal é que haja colaboração de todos os serviços diocesanos para que esta formação seja desejada. Queremos a colaboração do serviço da Pastoral Juvenil na sensibilização dos grupos e da Pastoral Litúrgica. Estamos disponíveis para, por exemplo, num encontro de leitores, ensinar a cantar o início e a conclusão da leitura.
DP – Tenho que dizer que o maior apoio que a EDMUSA tem é o do Sr. Bispo. Apoio incondicional. Um estímulo que nos faz andar de mangas arregaçadas. É um entusiasta da formação musical. Mas também há muitos párocos que apoiam os seus músicos.
Antes do Concílio, os seminários estavam cheios e eram autênticos conservatórios. Tinham uma formação musical muito aprofundada. As dificuldades que temos em desenvolver o trabalho da EDMUSA ressente-se da falta de formação musical do clero. Se os sacerdotes não têm sensibilidade, não se apercebem de que não estamos a falar de luxo mas de gramática. Não se apercebem de erros que não são dignos da casa de Deus.
PC – É importante referir que os alunos são agentes da paróquia, trabalham na paróquia gratuitamente. A paróquia tem de estar sensível para a formação. Tem de ser a grande motivadora, impulsionadora e primeira interessada na formação. Por isso, sugerimos que as paróquias suportem metade dos custos de formação.
DP – O boletim de inscrição tem a assinatura dos párocos. Normalmente não se aceitam formandos que não estejam ligados a paróquias, daí que seja lógico o apoio à formação.
Quando custa a formação?
DP – Estamos a pedir 20 euros por mês (2,5 euros para coralistas no curso livre), que não cobrem de modo nenhum o custo da formação, principalmente com formadores. No fim, temos que bater às portas da Diocese. Mas estamos a pensar em estratégias de angariação de fundos. O que os alunos pagam dá para 50 por cento das despesas.
PC – É uma formação barata.
DP – Se um professor cobrar 20 euros por hora, não cobra muito. Não é isso sequer que a escola paga. Mas há quem cobre duas ou três vezes mais. Pedimos 20 euros por mês, mas o formando tem aulas de Coro, Formação Vocal, Formação Musical, Instrumento de Tecla… No fundo, é quase uma propina simbólica para incentivar a formação. Temos de conseguir mais dinheiro por outras vias.
