Sínodo dos Bispos encerra num espírito de profunda comunhão

PRISCILA CIRINO

Após duas semanas de reuniões, concluiu-se, no dia 26 de Outubro, a XII Assembleia Sinodal dos Bispos. Os 244 padres sinodais apresentaram ao Papa Bento XVI, como fruto dos trabalhos, 55 proposições a partir das quais o Sumo Pontífice deverá escrever uma Exortação Apostólica sobre o tema do Sínodo: “A Palavra de Deus na vida e na missão da Igreja”.

As proposições estão dividas em três partes. Na primeira, “A Palavra de Deus na fé da Igreja”, fazem-se propostas para que as comunidades católicas compreendam e vivam melhor a sua relação profunda com a Palavra, Jesus Cristo, a quem é possível encontrar na leitura e na meditação das Escrituras. Sublinha-se o papel do Espírito Santo, da Igreja e da Tradição; analisa-se a relação inseparável entre o Antigo e o Novo Testamentos; realça-se a íntima relação entre a Palavra e a Eucaristia; apresenta-se a Palavra de Deus como Palavra de reconciliação, Palavra de compromisso a favor dos pobres e fundamento da lei natural.

Sob o tema “A Palavra de Deus na vida da Igreja”, na segunda parte do documento, oferecem-se ideias concretas para melhorar as homilias, pede-se uma revisão do Lecionário – a selecção de leituras bíblicas utilizadas na liturgia –, promove-se a Lectio Divina (método de leitura orante da Escritura) e pede-se a abertura do ministério do leitorado às mulheres. Solicita-se também a superação do dualismo entre exegetas e teólogos, assim como entre exegetas e pastores, reconhecendo a cada um a sua tarefa insubstituível.

A terceira parte recolhe as proposições sobre “A Palavra de Deus na missão da Igreja”. Fala-se da Palavra e da arte, da Palavra e da cultura, assim como da tradução e da difusão da Bíblia. Também são temas deste apartado a transmissão da Palavra através dos meios de comunicação social, assim como a questão da leitura fundamentalista da Bíblia e o fenómeno das seitas. O diálogo inter-religioso, a promoção de peregrinações e estudos na Terra Santa e a relação entre Palavra e custódia da criação são ainda contemplados nas proposições. Finalmente, convida-se à promoção da oração do Ângelus e do terço, ao referir-se à Nossa Senhora modelo de fé do crente.

A todo o Povo de Deus, os padres sinodais dirigiram, por sua vez, uma mensagem, na qual convidavam a fazer uma viagem espiritual em quatro etapas: “A voz da Palavra: a Revelação”, “O rosto da Palavra: Jesus Cristo”, “A casa da Palavra: a Igreja” e “Os caminhos da Palavra: a missão”. Assim, convocam-se os cristãos a descobrirem, viverem e anunciarem a Palavra de Deus.

Faltaram conflitos

Uma das características deste Sínodo dos Bispos, que percorreu as sessões do início ao fim, foi o ambiente de profunda comunhão vivido não só entre os padres sinodais, mas também com os delegados fraternos (membros de outras confissões cristãs) e representantes de outras religiões.

Com um toque de bom humor, um dos presidentes delegados do Sínodo, o cardeal George Pell, arcebispo de Sydney, reconheceu que foi um dos sínodos nos quais se viveu “mais acordo, mais comunhão, e por este motivo talvez tenha sido o menos interessante”. O purpurado referia-se aos comentários de muitos jornalistas de que o Sínodo não teria grande repercussão nos meios de comunicação social, pois “faltaram conflitos”. Ao comentar as palavras de D. George Pell, Bento XVI disse que não sabia se era ou não o Sínodo mais interessante, mas sim o “mais comovente”, pois, ao ouvir outro falar da Palavra de Deus, escutamos melhor o Senhor.

Nesta escuta, destaca-se também como grande novidade do Sínodo a proposição número 37. Essa contém um elemento histórico, pois acolhe a contribuição do patriarca Bartolomeu I de Constantinopla, proferida na sua homilia da Celebração das Vésperas do dia 18 de Outubro. Desta forma, pela primeira vez desde a separação entre a Igreja Católica Romana e a Igreja Ortodoxa, em 1054, abre-se uma possibilidade para que o magistério de um patriarca ortodoxo seja acolhido no magistério ordinário do Papa.

Bispos portugueses fazem balanço

da experiência sinodal

Os delegados portugueses participantes do Sínodo dos Bispos, D. Anacleto de Oliveira e D. António Bessa Taipa, regressam a Portugal com a certeza de terem vivido uma experiência única, sobretudo pela oportunidade de partilhar experiências e opiniões com prelados católicos de todo o mundo.

D. Anacleto de Oliveira, Bispo Auxiliar de Lisboa, destacou, entre outros elementos, a abertura manifestada pelos padres sinodais ao diálogo entre cristãos, com membros de outras religiões e com as culturas do mundo. “Foi uma sensação única para quem, como eu, passou anos e anos no estudo da Sagrada Escritura, sentir ao vivo alguém que estuda a mesma Palavra de Deus”, assegura.

O Bispo Auxiliar do Porto, D. António Bessa Taipa, também recorda que fica a expectativa em relação ao valor que será dado ao serviço do leitor nas celebrações litúrgicas. “Se para a celebração dos outros sacramentos temos ministros instituídos, porque é que não havemos de ter para esta missão da Igreja, que é proclamar a Palavra de Deus?”, questiona. Para o prelado, esta medida tem como objectivo “dar à Bíblia e à Palavra de Deus em geral aquela dimensão sacramental que ela já tem e que no Sínodo foi reconhecida abertamente”.