Mestre carpinteiro constrói em fibra

António Conde, mestre carpinteiroda Gafanha da Encarnação está a construir um moliceiro em tudo igual aos outros… só que…. de fibra

António Conde é um mestre carpinteiro naval, com estaleiro artesanal na Gafanha da Encarnação, que está a inovar a construção de barcos tradicionais da Ria de Aveiro e da costa aveirense com a substituição da madeira por fibra.

No estaleiro de António Conde ganha corpo o primeiro barco moliceiro em fibra, tal como daí também saiu o primeiro barco da arte xávega feito em fibra, mas segundo os moldes tradicionais, ou seja como os barcos em madeira que este mestre carpinteiro construiu durante décadas. A estes, junta as “chatas” para a pesca artesanal na ria e barcos motoras para a pesca costeira destinados à Figueira da Foz.

O primeiro barco moliceiro feito em fibra terá dez metros de comprimento, pelo que também é designado por “barco moliceiro de meia maré” (por levar metade da carga de um moliceiro normal). António Conde afirma que esse barco ficará “exactamente igual ao barco em madeira”, porque irá fazer ao pormenor as cavernas, a proa, a popa, o leme. No final, “ficará igualzinho a um moliceiro em madeira, tanto por dentro como por fora, incluindo com a tosta de virar (bico da proa que vira para baixo, para poder passar debaixo das pontes) e os painéis coloridos”, afiança o construtor naval.

Este barco moliceiro, o primeiro do género construído em fibra, terá por destino o serviço turístico. António Conde também fez o primeiro típico barco “meia lua” (da pesca com arte xávega), o qual já se encontra operacional na Praia de Mira, tendo sido considerado o melhor barco da costa aveirense.

A opção pela fibra foi motivada por questões práticas, como sublinha António Conde: “A fibra chega em latas de 20 ou de 5 quilos, enquanto a madeira implica usar toros com quinze metros de comprimento, o que é difícil de transportar”. Para construir o barco, este mestre carpinteiro fez uma armação em madeira, que primeiro é forrada por dentro. “Só depois é que é fibrado como se fosse num molde normal”, explica.

António Conde fez inúmeros barcos moliceiros, da xávega e outros também tradicionais da ria, em madeira. Este construtor naval, em parceria com o Clube de Vela da Costa Nova, tentou construir um “ílhava”, barco extinto da ria há cerca de um século. O projecto abortou por falta de documentação (fotográfica ou gráfica, da época) com os detalhes visíveis.

“Nasci a fazer barcos”

António Conde recorda que nasceu a fazer barcos. “Com sete anos e meio já estava a fazer barcos com o meu pai. O meu pai fez muitos moliceiros e era o ‘rei’ dos barcos da arte xávega. Nesse tempo, fazíamos barcos da xávega para as companhas que operavam desde Espinho até à Praia de Mira”, diz.

A tradição vem ainda de mais longe, porque já os seus antepas-sados eram carpinteiros navais, na zona de Salreu, “arte” também seguida por outros elementos da família.

O gosto pelo inovar é outra tradição da família de António Conde. O seu pai, também de nome António Conde, introduziu na ria as lanchas tipo “Mississipi” (accionados por “rodas”, por a água do Canal de Mira ser muito baixa) que fizeram o transporte de passageiros entre a Gafanha da Encarnação, e a Costa Nova.

Essas lanchas funcionaram du-rante alguns anos, até que os vários barqueiros acabaram com a empresa de transporte, de que eram sócios. A partir daí, regressaram as tradicionais “barcas” (como a que ainda existe na “Bruxa”). Após a construção da Ponte da Barra só uma “barca”se manteve operacional.

“Moliceiros” e “matolas”

Os barcos matolas são uma espécie de barcos moliceiros, habitualmente pintados de escuro (breu), ligeiramente mais pequenos que os moliceiros tradicionais, e construídos quase sempre em Seixo de Mira. Navegam no Rio Boco e, como têm que passar por baixo das pontes de Ílhavo, Vista Alegre e Vagos, têm as proas mais baixas.

O barco moliceiro tradicional tem 15,5 metros de comprimento. Havia alguns mais pequenos, que eram os de “três quartos” e o de “meia maré”. António Conde explica: “O barco grande levava uma maré inteira de moliço. O outro, levava três quartos da maré e o pequeno só levava meia maré, porque nesse tempo o moliço era vendido por ‘maré’, que era a medida então usada”.