Pode viver-se sem vocação?

A pergunta pode parecer estranha… Pode soar a porta entreaberta para um discurso redondo, feito a pensar em destinatários bem definidos e só para esses. Mas não é assim. A pergunta tem mesmo um sentido universal. Poderá o ser humano viver sem vocação? Poderá alguém sobreviver à angústia da pergunta sobre para onde vamos sem abrir a janela de possibilidade de que caminhamos para algum lado?

É exactamente aqui que a pergunta ganha um sentido universal: pode o homem viver o dia-a-dia, nas suas felicidades e tristezas, na sua miudeza e grandeza, sem rumar em direcção a Alguém que chama, sem, pelo menos, levantar o véu (num processo de desvelamento, de revelação, tão presente no Cristianismo!) que permite perceber que a vida se encaminha para um determinado sentido, num determinado rumo?

Parecendo ser uma pergunta sobre o que se deve ser, na vida, esta inquietação que serve de título a este texto é, muito mais, uma interrogação sobre o sentido da liberdade e do agir humano. Na verdade, num tempo como este, em que se preconiza como valor fundamental a liberdade, pode esmagar-se o significado de tal desejo se se ocultar o dinamismo vocacional da existência humana. É que estamos diante de uma ideia que pode esgotar-se em si mesma e inclusive destruir-se se for entendida apenas como uma força que nos arranca da opressão de algo: estaremos, neste quadro, a falar de liberdade de… Liberdade de fazer ou pensar ou agir… entendida como a autonomia perante toda a opressão. Mas uma tal definição, só por si, conduz ao isolamento de cada um em si mesmo, pois, em última instância, se isto esgotar tudo o que deve entender-se por liberdade, até o outro, que vive a meu lado, pode ser factor de opressão e, por isso, limite à minha liberdade. A história provou e continua a provar, os limites sérios desta visão da liberdade, que fecha o homem em si mesmo, que desfaz cada um num individualismo, em vez de o estruturar como pessoa. É apenas quando a liberdade é entendida como liberdade para, como liberdade que me encaminha para um determinado rumo, que me realiza, na medida em que respondo a uma voz que me chama, apenas nessa altura a liberdade passa a entender-se como condição de realização com os outros. E aqui cabe falar de vocação, se a entendermos como resposta a «chamamento» (do Latim «vocare», «chamar», «apelar»). Assim, serei livre se responder e corresponder. Assim, de facto, liberdade será concomitante a responsabilidade (pois esta nasce da ideia latina de «reponsa» – «resposta»). Sou mais livre quanto mais corresponder, quanto mais me encaminhar no sentido da Voz que chama e que se faz eco, no interior de mim, na minha consciência pessoal, que só é possível no encontro com os outros. Na realidade, todas as ciências humanas, se dispostas a ouvir o homem, genuinamente, concluem que a consciência de si só é possível no encontro com os outros e, radicalmente, com o Outro (Deus), que chama, constantemente. Como sublinham os grandes pensadores da nossa época, de entre os quais vale a pena destacar Paul Ricoeur ou E. Levinas, «o outro é justamente aquele que, pela sua alteridade (condição de ser outro), me chama, me convoca, e, dessa forma, em faz sair do encerramento de mim mesmo.». Podem parecer palavras apenas da filosofia, abstractas, apologéticas, mas a verdade é que não há ser humano se não houver encontro, como o comprovam os casos das crianças que são abandonadas na selva e amamentadas por animais selvagens: nunca, até encontrarem e serem educadas por seres humanos, tiveram consciência de si mesmas. Só no encontro e na resposta à interpelação de outros iguais a si é que foram capazes de tomar consciência de si. É que, com efeito, o ser humano está geneticamente marcado pelo dinamismo da vocação, da resposta a Alguém que chama. E quando tal falha, o ser humano está, realmente, em perigo. Uma sociedade que quer libertar-se, mas insiste em não se questionar sobre para onde ou se vai para algum lado, está a pôr em causa a sobrevivência de si mesma e dos seus membros que, progressivamente, se vão degradando, reduzindo-se de pessoas a meros indivíduos.

Será ainda sem sentido a pergunta inicial? E haverá alguma dúvida sobre qual o sentido da resposta?