A Missão Jubilar Diocesana deve envolver todos os cristãos

Entre a visita pastoral a Angeja, a participação nas comemorações dos 100 anos dos Bombeiros Novos de Aveiro, a abertura do Advento na Sé e a presença em Fátima numas jornadas, ora recebendo o jornalista do Correio do Vouga, ora respondendo por correio electrónico, D. António Francisco faz um balanço dos seus dois anos na diocese de Aveiro, diz o que espera da Missão Jubilar Diocesana e sublinha a experiência participativa que está a ser a definição e lançamento das linhas de acção da Diocese. A segunda parte desta entrevista será publicada na próxima semana.

CORREIO DO VOUGA – A Igreja Diocesana prepara-se para lançar no dia 8 de Dezembro, Dia da Imaculada Conceição e quando se completam dois anos da presença do Sr. Bispo em Aveiro, um Plano Pastoral de cinco anos. O que espera deste Plano?

D. ANTÓNIO FRANCISCO – Ao propor à Diocese um Plano Pastoral para cinco anos é meu desejo percorrer ao longo destes cinco anos toda a Diocese em Visita Pastoral para melhor conhecer e servir todas as comunidades e transportar comigo os dinamismos e os objectivos pastorais que o plano implica, exige e supõe. Quero também estabelecer uma unidade maior entre os planos pastorais de cada ano, dando mais tempo à sua implementação e criando um fio condutor que permita ser elo e estabelecer articulação entre os vários temas propostos e objectivos apresentados em cada ano. Por outro lado, temos no horizonte destes cinco anos a celebração dos 75 anos da restauração da Diocese.

Neste período esperamos alcançar outros objectivos como: reflectir, reorganizar, mobilizar e coordenar melhor as estruturas da diocese, a nível paroquial, arciprestal e diocesano; retomar as conclusões e os compromissos do último Sínodo Diocesano; olhar o futuro com esperança e com ânimo evangelizador; e programar e implementar uma Missão Jubilar Diocesana.

O Sínodo (1990-1995) está esquecido? Não foi aproveitado, no dinamismo que representou?

De facto, parece que o Sínodo já se esqueceu, já aconteceu há muito, quando afinal só dista de nós treze anos e foi uma extraordinária experiência de mobilização da Diocese, mas que pouco ou nada diz já aos mais novos. Temos de retomar as suas conclusões e dar-lhes a continuidade que merecem como serviço à evangelização.

Referiu a implementação da Missão Jubilar Diocesana (MJD). Algumas pessoas interrogam-se sobre a MJD e inclusive sugeriram a este jornal que pedisse ao Sr. Bispo que explicasse o que vai ser…

A Missão Jubilar Diocesana é uma fórmula uma metodologia pastoral que tem seis elementos estruturantes:

* inspira-se no convite de João Paulo II dirigido a toda a Igreja para uma nova evangelização com novo ardor, novo entusiasmo, novos métodos;

* deve socorrer-se da experiência vivida em várias cidades através do Congresso da Nova Evangelização, como Lisboa, Viena, Bruxelas, Paris, etc.;

* alimenta-se em permanência desta consciência eclesial que nos diz que toda a Igreja deve ser missionária;

* conta com a certeza de que os Serviços Diocesanos como sejam os Secretariados de Pastoral e outros, quando coordenados e motivados a viver e a agir em comunhão têm em conjunto capacidade para colocar no terreno da acção pastoral uma Missão que mobilize toda a Diocese; Alguns trabalham já com este espírito, metodologia e dinamismo. Aprendamos uns com os outros e faremos em conjunto e em comunhão maravilhas.

* deve envolver as comunidades cristãs e os arciprestados mas deve igualmente envolver, comprometer e dar espaço aos Movimentos Apostólicos que, sem quebrar os laços da comunhão, dêem o contributo dos seus carismas e pedagogias evangelizadores. Aqui há um imenso trabalho a fazer que exige abertura da Igreja aos novos caminhos que o Espírito de Deus nos desafia a percorrer e aos carismas que o mesmo Espírito nos convida a acolher;

* supõe uma equipa coesa, ampla e criativa que congregue pessoas e sinergias capazes de colocar todos os cristãos em processo de oração, de formação e de acção evangelizadoras.

Podemos concluir que a MJD, por enquanto é algo de contornos abertos. Tem os cinco elementos estruturantes que acabou de referir, mas a sua realização concreta ainda não está programada…

A MJD tem de ter em conta uma auscultação da Diocese, conhecendo a experiência do Sínodo Diocesano e a preparação do Ano Jubilar (2000) e tendo em conta a experiência de secretariados diocesanos, como o da Pastoral Juvenil, que percorrem toda a Diocese e que são capazes de, em pouco tempo, pôr no terreno uma acção que mobilize toda a Diocese. Mas quero também implicar não só o clero e as comunidades religiosas, mas também as comunidades cristãs das paróquias, que às vezes parecem um pouco fechadas sobre si próprias, e os movimentos apostólicos, que me parecem um pouco limitados à sua esfera e aos seus espaços de intervenção.

Há alguém ou algum grupo que esteja incumbido de implementar a MJD?

Depois auscultar as instâncias, como costumo fazer (os arciprestados, os Conselho Diocesano de Pastoral, o Conselho de Presbíteros…), espero constituir, num segundo momento, para começar a preparação próxima e ritmada, uma equipa coesa, incumbida desta coordenação e dinamização. Penso e desejaria que fosse através da vigararia da pastoral geral.

D. António Francisco espera que a MJD provoque uma grande renovação na Diocese…

Será o tempo de acção a todos os níveis e sectores da vida e da missão da Igreja em Aveiro. Será o tempo de ver os cristãos enviados em missão ao encontro dos que não acreditam ou de tantos que se distanciaram da Igreja ou simplesmente a ignoram e a esquecem. Será o tempo propício ao diálogo criativo e aberto com o mundo da cultura, com o mundo do trabalho e com o mundo da educação e da juventude. Isto faz-se com a oração, com a formação, com o testemunho e com a acção. Evangelizar consiste em falarmos mais de Deus e menos das coisas triviais, que muitas vezes de-moram e retardam o encontro com Cristo.

Para “ver os cristãos enviados em missão” vai haver alguma metodologia especial? Há modelos para a MJD, como a grande Missão Continental da América do Sul?

A metodologia pastoral que me parece a mais indicada é a da Acção Católica: Ver, iluminar a realidade e agir. Mas porque não recordar o tripé dos Cursilhos de Cristandade: piedade, estudo e acção ou a experiência de dinamização comunitária do Movimento do Mundo Melhor ou dar espaço a formas e métodos criativos novos de Evangelização que respondam às realidades, expectativas, exigências e desafios culturais do nosso tempo?

Por outro lado, gostaria de trazer para a Diocese um dos Institutos Religiosos que têm nesta pedagogia da Missão o seu carisma fundador. Os religiosos (as) têm aqui uma oportunidade extraordinária de trabalho e de testemunho. Convenhamos, porém, que sem a acção dos leigos não é possível a evangelização. E Aveiro tem uma plêiade de leigos e de movimentos apostólicos bem formados e disponíveis para a missão. Confio ao Espírito Santo, à protecção de Nossa Senhora e à intercessão de Santa Joana Princesa a realização desta Missão.

O modelo da América do Sul faz todo o sentido. Devemos aprender com esta experiência que há muito sonho e desejo para as dioceses portuguesas, unindo e unificando no essencial os Planos pastorais diocesanos num único, embora com adequações circunstanciais. Talvez aqui se situe uma das respostas concretas que o Santo Padre Bento XVI nos sugeria na sua mensagem de 10 de Novembro de 2007 [na visita dos Bispo portugueses ao Papa].

“Sinto-me aveirense, como se aqui vivesse desde sempre”

Foi no dia 8 de Dezembro de 2006 que D. António Francisco dos Santos entrou solenemente na Diocese de Aveiro. O Correio do Vouga sugeriu ao Bispo de Aveiro que fizesse um balanço destes dois anos.

Entrou na Diocese em festa. A seguir… vieram as surpresas?

Nada me surpreendeu muito, na medida em que eu vinha com espírito de abertura para aprender e conhecer e servir, com generosidade para me entregar por inteiro à causa do Evangelho e para me dar sem medida às pessoas, às comunidades e ao trabalho.

Sinto-me aveirense, como se aqui vivesse desde sempre, e nem sequer foi necessário alargar o coração ou abrir mais a alma ou retirar da memória e da gratidão as terras de Cinfães, de Lamego ou de Braga.

O acolhimento sempre sentido, o respeito sempre encontrado e a dedicação tantas vezes manifestada oferecem-me uma espontânea alegria de viver aqui e de servir como bispo em terras de Aveiro como ainda ontem [29 de Novembro] ouvia cantar na conclusão da Visita Pas-toral. Sinto que as pessoas cantam amiudadamente este cântico com que fui recebido na Sé no dia da minha entrada e o fazem com carinho e elevação, como gesto tão nobre e delicado de saudar a minha presença e a minha missão.

O caminho que fui chamado a percorrer como bispo diocesano estava aplanado e a messe que fui chamado a trabalhar estava laboriosamente preparada para a sementeira graças ao testemunho de doação de sacerdotes, diáconos, religiosos(as) e leigos (as), tão dinâmicos e comprometidos pastoralmente, e ao zelo inexcedível de todos os bispos que me precederam e concretamente dos senhores D. Manuel e D. António Marcelino, a quem a Igreja de Aveiro tanto deve.

O que destaca na sua própria acção nestes dois anos?

Nestes dois anos destaco da minha acção o esforço de conhecer pessoalmente todos os sacerdotes, diáconos e comunidades religiosas e de ter visitado e celebrado a Eucaristia em quase todas as paróquias. Faltam apenas quinze paróquias das cento e uma da Diocese.

Destaco igualmente o testemunho de comunhão e de corresponsa-bilidade sempre encontrado nas pessoas e nas instâncias que comigo trabalham directamente e o valor da colaboração recebida dos Conselhos Episcopal, Presbiteral, Pastoral e de Arciprestes, que são instâncias essenciais na vida da Igreja Diocesana.

Refiro com alegria o regresso à Diocese de quatro sacerdotes diocesanos e da colaboração dada por mais quatro sacerdotes provenientes de Institutos Religiosos e disponibilizados pelos seus Superiores para trabalharem em Aveiro e realço com imensa gratidão a disponibilidade manifestada por todos os sacerdotes nomeados para novas missões pastorais que lhes confiei. Nenhum se recusou a aceitar novos desafios pastorais e complexas missões de acrescido trabalho e aumentada responsabilidade.

Refiro igualmente a abertura de duas novas Comunidades Religiosas na Diocese assim como a alegria sentida na celebração do Ano Jubilar da presença das Carmelitas de Clausura em Aveiro.

Outro ponto importante, como tem publicamente afirmado, é certamente a reabertura do Seminário de Aveiro…

De facto, assume particular importância para a Diocese o trabalho vocacional, principalmente através da dinamização do Pré–Seminário e da reabertura do Seminário de Santa Joana. Foi-lhe restituída a missão de receber os alunos do Ensino Secundário e reorganizada a Equipa Formadora do Pré-Seminário e do Seminário, garantindo a presença de um sacerdote na Equipa Formadora do Seminário Maior de Coimbra. Sentimos a alegria de termos neste momento dezanove seminaristas. Este sinal de esperança ameniza a preocupação de nestes dois anos terem falecido já nove sacerdotes e de ainda não ter havido nenhuma ordenação de presbíteros para a Diocese.

O Sr. Bispo anunciou a construção da Casa Sacerdotal e a criação se associações de leigos. Como estão a decorrer estes projectos?

A construção da Casa Sacerdotal constitui um compromisso assumido precisamente há um ano, em 8 de Dezembro. Um ano depois temos diligências feitas, lugar escolhido e o senhor arquitecto já incumbido de elaborar o estudo prévio do Projecto.

Urge também a partir de agora construir uma nova Sede dos Serviços Pastorais Diocesanos em substituição do Edifício da Rua José Estêvão. É um compromisso a assumir perante a Diocese no próximo dia 8 de Dezembro. Contactei nesse sentido também o mesmo arquitecto para que a mudança de instalações não tarde.

Realço também com alegria a conclusão neste ano das obras do Edifício sede das Florinhas do Vouga, que constituem uma obra essencial e indispensável no trabalho sócio caritativo da Diocese, assim como das obras urgentes de restauro e requalificação da Sé Catedral, que exigiram muito trabalho e generosidade e que vieram dar à nossa Sé muita dignidade e beleza.

A nível de movimentos apostólicos e associações cristãs estamos a trabalhar para constituir o Núcleo de Aveiro da ACEGE (Associação Cristã de Empresários e Gestores), assim como a Associação de Enfermeiros e Profissionais de Saúde Católicos e desejo progressivamente centrar também neste sector dos movimentos apostólicos maior presença e mais dedicação.

A programação pastoral está a ser “experiência muito bela e participativa”

A Diocese de Aveiro começa no dia 8 de Dezembro a primeira de cinco etapas do quinquénio pastoral. Até 22 de Novembro de 2009 (Solenidade de Cristo-Rei), o lema será “A Igreja Diocesana renovada nas suas estruturas e comunidades e servidora dos mais pobres, torna presente a Esperança”.

O lançamento do dia 8 pretende ser mais envolvente do que em anos anteriores (até pela celebração na Sé, às 16h)?

Penso que esta programação pastoral constitui já uma experiência muito bela e participativa. Nasceu de um texto base que apresentei para reflexão, estudo, debate e diálogo. Uma espécie de texto de trabalho prévio ao jeito dos Lineamenta dos Sínodos. Reflectiram-no o Conselho Diocesano de Pastoral, Conselho de Presbíteros e de Arciprestes, Conselho de Diáconos, as Congregações Religiosas e os Movimentos Apostólicos de Leigos e a partir de todos os contributos delineou-se este Plano Diocesano com uma metodologia própria, rompendo esquemas antigos, vencendo rotinas, sugerindo etapas e tempos diferentes, adequando-se mais aos tempos litúrgicos ou a datas significativas, afirmando a unidade entre as várias etapas ao longo destes cinco anos, centrando a Esperança como virtude a viver e valor a implementar e propondo critérios de avaliação no decurso do tempo. Começamos esta primeira etapa no próximo dia 8 de Dezembro. Prolongamos neste ano o tema do serviço aos mais pobres já vivido no ano anterior.

Quais são as prioridades pastorais nos próximos tempos?

Priorizamos neste contexto quatro âmbitos: a pastoral da Caridade, procurando para lá da solicitude sócio-caritativa elaborar um Plano de Acção para a Pastoral Sócio-Caritativa Diocesana; a Formação Cristã procurando revitalizar o ISCRA (Instituto Superior de Ciências Religiosas de Aveiro) e torná-lo mais conhecido e amado pela Diocese; a valorização do Arciprestado e das estruturas arciprestais; a dinamização vocacional como prioridade sempre presente.

Em todos estes âmbitos há muito a fazer, mas há também muita vontade de percorrer caminhos novos em todos estes sectores da acção pastoral. No campo concreto da Pastoral Social muito se faz diariamente e em tantas frentes de acção na nossa cidade e na nossa diocese. Os pobres não podem esperar. Quando batem à porta da Igreja devem encontrar-nos atentos e disponíveis para os ajudar e com eles construirmos um mundo mais justo e fraterno.