Desigualdades gritantes… gritadas ou não

Questões Sociais «(…) As excessivas desigualdades sociais e económicas entre os membros e povos da única família humana provocam o escândalo, e são obstáculo à justiça social, à equidade, à dignidade da pessoa humana e, finalmente, à paz social e internacional» – (nº. 29 da «Gaudium et Spes» – «Constituição Pastoral sobre a Igreja no Mundo Contemporâneo», 1965). Estas desigualdades sempre existiram, e agora vêm sendo objecto de forte contestação a propósito da crise financeira, económica e social; são consideradas gritantes, porque ultrapassam todos os limites razoáveis.

Acontece, porém, que o leque das desigualdades é bastante largo: tanto se verifica nos rendimentos mensais de centenas de milhares de euros como nos de dezenas de milhares, embora umas sejam mais gritadas contestariamente do que outras. No entanto, é idêntico o processo que está na origem de umas e de outras; por isso, é bastante ambígua a denúncia das injustiças sociais feita por detentores de rendimentos que, não sendo dos mais altos, são muitíssimo superiores aos mais baixos.

Não faltam princípios favoráveis à redução das desigualdades excessivas, mas faltam propostas sobre a maneira de a conseguir; prevalece até a contestação primária, com fortes doses de demagogia, que acaba por favorecer a perpetuação das desigualdades. Em termos políticos, nem a esquerda nem o centro nem a direita têm sido coerentes. Dentro da Igreja, invocam-se – e bem – os princípios da sua doutrina social; mas, em contrapartida, os movimentos do laicado e o pensamento social cristão vêm descurando a respectiva concretização e, bem assim, a conjugação com a realidade económica e social.

Só para efeitos de registo, assinalo cinco vectores indispensáveis numa estratégia a favor da redução das desigualdades gritantes. O primeiro respeita à moral e aos valores, sem os quais não se interioriza o reconhecimento da igual dignidade de todas as pessoas. O segundo respeita à correlação de forças; no caso de esta ser desfavorável ao reconhecimento daquela igualdade, não se alcançam resultados consistentes. O terceiro vector respeita ao sistema económico e social; é indispensável que este neutralize as tendências para as desigualdades inaceitáveis. O quarto respeita à promoção de experiências empresariais, ou outras, que mostrem ser possível a conciliação do sucesso com a equidade social. E, por fim, o quinto vector respeita aos sistemas de ciência e de ensino; um e outro precisam de profunda inflexão estratégica, a favor da igual dignidade humana, sobretudo no quadro dos grandes interesses.

Nota: o artigo publicado em 3 de Dezembro apareceu sob o título «acção social desconhecida», em vez de «acção sindical desconhecida»; peço desculpa pelo lapso.