P.e Francisco Melo, pároco da Gafanha da Nazaré e da Gafanha da Encarnação, é o vigário para a Pastoral Geral, estando sob a sua responsabilidade a programação do Dia da Igreja Diocesana. O Correio do Vouga entrevistou-o sobre este dia, que será celebrado a 6 de Junho, em novos moldes, e a sua participação num grupo que estuda novos caminhos para a Igreja em Portugal. Entrevista conduzida por Jorge Pires Ferreira
CORREIO DO VOUGA – Aproxima-se o Dia da Igreja Diocesana (DID). Este ano será celebrado com alguma diferenças, a começar pela mudança de dia. Costumava ser no último domingo de Junho…
P.E FRANCISCO MELO – É importante dizer o Dia da Igreja Diocesana não está fixado. A mudança surgiu para tentarmos fazer coincidir o DID com encerramento do Ano Sacerdotal (AS), que esteve marcado para o dia 12 de Junho, no Seminário de Aveiro. Só que nessa data o Seminário está ocupado. Antecipou-se para o fim-de-semana anterior. Entretanto, optou-se por outro espaço. Será no dia 6 de Junho, no Parque de Exposições de Aveiro.
O que espera desde DID?
O DID tem os objectivos que estão na nota pastoral [publicada no CV da semana passada]: fazer a experiência da Igreja diocesana que somos, celebrar festivamente a fé, viver a alegria de estarmos juntos nesta Igreja de Aveiro, além da componente do encerramento do ano sacerdotal, que está dependente de uma comissão.
O programa já está definido?
Sim. O acolhimento será às 9h30. Depois vamos ter três momentos de oração em simultâneo, um animado por crianças, outro por jovens e outro por adultos. Não quer dizer que se destinem a estas idades. Cada pessoa que chega vai integrar-se na oração que preferir. No acolhimento, vai ser dado a cada pessoa um mapa do espaço e com o horário. Às 11 horas temos o ensaio para a celebração da Eucaristia. Às 11h30, celebra-se a Missa, que naturalmente será presidida pelo Sr. Bispo. A seguir à Eucaristia ou talvez ainda antes – esse momento está por definir – serão divulgados os resultados e aberta a exposição do concurso “A Minha Igreja”. Depois da Eucaristia, temos o almoço e convívio. As pessoas podem levar almoço ou comprar lá a refeição. Uma empresa de reinserção ligada ao Cento Social Paroquial do Bunheiro está responsável por fornecê-las. Depois do almoço vamos ter apresentações de teatro e música e os “Jogos da Esperança”.
Que jogos são esses?
São jogos que os escuteiros vão organizar e em que todos podem participar. A parte da tarde será essencialmente de lazer, mas ninguém vai ficar diante de um único palco. As pessoas e as famílias vão circular. Por isso é que no início é dado um plano a cada pessoa – para que se sabia a que horas é que cada grupo actua e onde. Cada arciprestado foi convidado a levar um grupo do seu arciprestado, um grupo de teatro, música ou outra arte, mas ligado à Igreja. Os grupos actuarão em vários espaços. Às 17h00 haverá o concerto do P.e João Paulo Vaz, padre da Diocese de Coimbra. E às 18h, uma palavra do Sr. Bispo, a música que venceu o festival deste ano e uma largada de pombos.
Em termos de espaços, a celebração da Eucaristia é no exterior, entre os dois pavilhões. A refeição vai ser dentro de um pavilhão e a exposição tanto pode ser dentro como fora, depende dos trabalhos que chegarem.
Espera que as pessoas apareçam em grande número, que seja de facto um dia de festa?
Que vai ser um dia de festa e alegria, não tenho dúvida. O objectivo maior é nós experimentarmos esta alegria de sermos cristãos, de acreditarmos em Jesus Cristo, de sermos Igreja em Aveiro. Se formos 20, somos 20; se formos 10 mil, somos 10 mil.
A Igreja tem estado debaixo de fogo por causa dos abusos sexuais, ao mesmo tempo que temos em meados de Maio a visita do Papa. Estes dois factores podem influenciar a participação?
Os escândalos da Igreja afectam sobretudo quem está nas franjas da Igreja. Quem está empenhado na vida das comunidades não penso que seja muito afectado. As pessoas que estão empenhadas sabem que a Igreja tem uma dimensão humana e conhecem a sua fragilidade. Não é isto que vai afectar. Quem está nas franjas e tem uma visão sociológica da Igreja, talvez. Mas quem vai ao DID é o povo de Deus, por isso…
Quanto à vinda do Papa, entendo-a como um sinal de unidade com a Igreja universal. Dá estímulo à Igreja portuguesa. Não creio que tenha influência na participação no DID.
Este ano, o DID não terá a dimensão de revisão do ano que por vezes costuma assumir…
De facto, não tem. Queremos que seja um dia de lazer, encontro, festa, celebração. Não é para ir escutar alguém nem para fazer revisões. Este é o primeiro aspecto. O segundo é que todos são convidados a almoçar lá, quer seja levando o almoço, quer comprando no local. Terceiro aspecto: querermos envolver a diocese através do concurso “A minha Igreja”. Quarto: a animação da Eucaristia não será feita por nenhum grupo especial, mas por todos os grupos corais em conjunto. Toda a diocese envolvida. Os cânticos já foram dados aos párocos para eles darem aos grupos corais.
Pode-se dizer que a programação do Dia partiu de baixo para cima?
Sim, tudo o que está no DID foram propostas feitas de vários quadrantes, até assumir este figurino. Devo dizer também que no próximo ano não haverá DID. Será celebrado parcelarmente: Dia Diocesano do Catequista, Dia Mundial da Juventude… Volta depois a haver em 2012. Em relação ao concurso “A Minha Igreja”, é de notar que está aberto a todas as idades, desde os muito pequeninos até aos mais velhos. O tema “A Minha Igreja” é muito aberto. Tanto podem surgir trabalhos sobre a comunidade cristã como sobre a Igreja que sonham, sobre o templo ou até uma caricatura do Sr. Padre. É um concurso muito aberto.
O P.e Francisco representa a diocese de Aveiro num grupo nacional que repensa acção da Igreja em Portugal.
Sim, eu e o P.e João Gonçalves, por nomeação do Sr. Bispo.
Esse grupo vem na sequência da visita dos bispos Portugueses ao Papa, em Novembro de 2007?
Penso que não foi o único facto. Há muito que existe a percepção nos nossos bispos sobre a necessidade de terem caminhos comuns. Penso, aliás, que é um desejo com dezenas de anos.
O que está a ser feito?
Cada bispo escolheu dois padres. E os ins-titutos religiosos também estão representados por delegados. A conferência episcopal delegou no Sr. Patriarca a coordenação desta equipa que já reuniu várias vezes. D. José Policarpo fez um primeiro documento “Formação para a Missão, formação na missão”, em que apresentava o que entendia ser o sentido deste trabalho. Entretanto o documento foi discutido, reelaborado e apresentado aos bispos na assembleia plenária de 12 a 15 de Abril, em Fátima.
O que se pretende, em termos concretos?
A ideia é criar caminhos comuns para a Igreja em Portugal.
Isso pode levar a um lema para toda a Igreja? A objectivos assumidos pelas dioceses? A um único plano pastoral?
Penso que nunca chegaremos a um único plano pastoral. Cada diocese tem os seus e em tempos diferente. Aveiro tem um plano até 2013. Outras têm-nos mais alongados Outras, anuais. Quando muito, iremos encontrar alguns princípios orientadores.
Há duas perguntas vão ser feitas para reflectir: o que a Igreja vê de positivo na sociedade, e que sinais de Deus encontramos na Igreja. O documento já elaborado aponta três linhas: exigências de formação cristã; nova evangelização; novas formas de exercício do ministério sacerdotal. Serão estes três eixos por onde vamos caminhar. O que significa a nova evangelização? É o eterno problema. São questões em aberto. Vamos reflecti-las. Mas é claro que temos problemas complicados na Igreja em Portugal: a formação é um deles, a preparação para os sacramentos, a admissão aos sacramentos. Continuamos sem linhas orientadoras. Variam de diocese para diocese. Estamos a ter batalhas perdidas.
Refere-se a que “batalhas perdidas” em concreto?
Por exemplo, a questão do padrinho de baptismo. Colocamos como condição que o padrinho seja crismado, pressupondo que isso é sinal de vida cristã coerente. Fazemos uma exigência num ponto formal, mas o mais importante, que é saber se a família tem ou não condições para dar a educação cristã dos filhos, passa ao lado.
Mas há outras questões…
Sim, em algumas, penso que vão ser dados passos importantes. Pelas notícias recentes, vejo que vai avançar a exigência da certificação dos centros sociais paroquiais. Temos de ter os centros sociais a funcionar como deve ser, com qualidade.
No campo celebrativo, penso que é notório que a prática cristã está a descer. Não temos números porque ainda não foi feito o recenseamento. Será feito depois do recenseamento nacional. Mas julgo que vamos apanhar uma surpresa muito desagradável.
Haver menos cristãos nas missas sugere que a liturgia deve ser questionada?
Na verdade, a celebração da Eucaristia é um encontro muito importante. Se o fizéssemos bem, quase chegaria. Temo que façamos da liturgia um museu. Hoje, as pessoas não são capazes de perceber muita da beleza da liturgia. A cultura mudou. A vida em sociedade é diferente.
Refere-se aos ritos? À música que se canta nas igrejas?
Dou um exemplo, a linguagem do Precónio Pascal, na Vigília de Páscoa. Duvido que a maior parte das pessoas perceba. Outro exemplo, o incenso. O que significa? A igreja não pode perder o património litúrgico e espiritual que tem, mas temos que mudar, se quisermos ser compreendidos. Mas eu não sou ninguém para mudar a liturgia.
