Missionário da Amazónia acolhe jovens de Aveiro Chama-se António de Assis Ribeiro, mas é conhecido como Padre Bira. Salesiano, ordenado em 1995, é missionário em comunidades das margens do Rio Madeira, um dos grandes afluentes do Amazonas. O P.e Bira e a sua comunidade têm acolhido jovens da Diocese de Aveiro em voluntariado missionário. A partir de hoje, durante um ano, recebe a Sónia. De passagem por Aveiro, depois de outros afazeres que o trouxeram à Europa, conversou com o Correio do Vouga sobre o trabalho missionário entre os povos ribeirinhos e o voluntariado juvenil
CV – Como é o seu trabalho de missionário?
P.e Bira – Não se trata de fazer o primeiro anúncio. Esse já foi feito pelos missionários que nos precederam. Temos salesianos que trabalham com as tribos indígenas dos ianomami (na fronteira com a Venezuela) e dos tucanos (na fronteira com a Colômbia). Eu trabalhei com os tucanos, no município de São Gabriel da Cachoeira. Agora estou actuando no município de Manicoré. O nosso trabalho é de manutenção da fé das comunidades eclesiais de base e através da acção social da paróquia. Significa apoio à escola, promoção da cultura, do desporto e do lazer com a juventude, defesa e promoção dos direitos humanos. Caminha mais ou menos por aí.
A mentalidade e as preocupações dos povos ribeirinhos são diferentes das dos outros brasileiros?
Sim. Os povos ribeirinhos vivem muito mais ao ritmo da natureza. Há pouca preocupação com o trabalho, com a tecnologia, com a exploração. Vivem o seu quotidiano com muita simplicidade, a partir do que a natureza oferece. Há toda uma cultura e agricultura de subsistência, muito simples. Colhem-se os produtos; vão até à cidade, vendem e voltam para o seu ambiente; pescam. Hoje estamos muito preocupados com a questão da educação e da saúde. Porque quando essas comunidades não são bem atendias pelo município, acontece o êxodo rural. Muitas comunidades ribeirinhas deixaram de existir porque as pessoas foram viver para a cidade, engrossando as bolsas de pobreza. Quanto mais atendimento houver no campo da saúde e da educação, mais elas vivem com dignidade e não saem dos seus ambientes.
O seu trabalho de missionário passa muito pelos Direitos Humanos…
Sim. Hoje a Amazónia tornou-se objecto de preocupação do mundo todo. O mundo olha para a Amazónia. Creio que a Amazónia não será preservada se nós não conscientizarmos o amazónida, ou seja, aquele que vive lá, a lutar pela própria protecção, a zelar pela sua cultura e seus valores. O amazónida compreende que é necessário assumir um modo de viver que não agrida o ambiente e ao mesmo tempo tem de ser capaz de denunciar aqueles que vêm de fora para destruir. Quem destrói a Amazónia não são os povos amazónicos. São as pessoas que vêm ou do sul do Brasil ou do estrangeiro, que compram grandes extensões de terra e começam a fazer aquilo que querem, destruindo, tirando a madeira de modo ilegal, ou outros produtos, plantando soja, criando gado…
Os Direitos Humanos estão ligados à protecção do meio-ambiente, que para nós é Criação de Deus…
Sim, a consciência ecológica é muito importante: compreender e respeitar os solos, explorar a natureza de modo saudável. Isso é inseparável da consciência da dignidade humana: ter direito a transportes, à produção agrícola, à escola, à saúde. Os povos ribeirinhos não são povos excluídos nem estão entregues às circunstâncias da natureza. São pessoas que vivem geograficamente noutro contexto, mas têm os mesmos direitos.
Anda muito de barco no seu trabalho?
É só barco. Manicoré está a 340 km de Manaus, a capital do Estado, subindo para o interior, rumo à Bolívia. Como transporte temos a hidrovia e o barco. Não temos estrada. Avião e barco são os únicos dois meios que temos. Demoramos dois dias de barco de Manaus a Manicoré ou 45 minutos de voo.
Como é a sua paróquia?
Sou pároco de uma paróquia com cerca de 250 km de extensão [o equivalente à distância de Aveiro a Lisboa], sempre nas margens do rio, com 75 comunidades. Eu estou mais no centro, cuidando de dez comunidades. O outro sacerdote, com um grupo de leigos, vai visitando as outras comunidades, rio abaixo, rio acima. Todos os anos fazemos uma assembleia dos líderes ribeirinhos. Na última assembleia um dos assuntos abordado foi o desenvolvimento humano. É cada vez mais uma preocupação das lideranças cristãs.
No pouco tempo que esteve em Aveiro, passou por escolas, encontrou-se com leigos jovens e adultos…
Vejo que há sensibilidade. A Igreja de Aveiro é muito aberta. Há abertura missionária, uma sensibilidade solidária muito significativa. É a segunda vez que estou aqui. Estive também em Janeiro de 2006 e vi essa preocupação. A minha província tem trabalhado com voluntários cá de Aveiro. Tivemos o Pedro, depois a Ana, o António, e agora vai a Sónia. Vim para me encontrar com a Sónia e a sua família. A partilha da experiência missionária é partilha de Igreja.
Do seu ponto de vista, qual é a grande vantagem de um jovem fazer a experiência de voluntariado missionário?
Estamos hoje num mundo globalizado. A globalização significa o intercâmbio de produtos, de ideias, mas também de valores, de experiências de vida, preocupações com a dignidade humana. Vejo que a experiência do voluntariado é muito significativa para sermos mais humanos, para sermos mais saudáveis e dignos. É uma manifestação de que todos somos responsáveis uns pelos outros.
Na sua comunidade recebe apenas jovens de Aveiro?
Temos um projecto chamado VIPA – Voluntariado Internacional para a Amazónia. Acolhemos jovens de Itália, Polónia, Portugal, Japão… Tem sido uma experiência muito rica.
O que recebe a sua comunidade dos jovens que acolhe?
Do ponto de vista técnico recebem o que cada um leva em termos de formação académica e profissional. Mas recebem também a sensibilidade, o desejo de querer partilhar, a convivência, o serviço concreto, nem que seja para estar com os jovens no desporto ou dar aulas. Essa visão de partilha é a grande contribuição. A sua presença. O voluntário que sai daqui não vai para resolver nenhum problema lá fora. Vai para partilhar o seu ser, a sua sensibilidade, o seu coração. A presença é um dos maiores gestos de solidariedade.
“De mente, coração e braços abertos”
Sónia Pinho, de Lombomeão (Vagos), parte hoje, como voluntária, para Manicoré. Licenciada em Línguas e Relações Empresariais, a jovem de 25 anos deixa a sua profissão de gestora de exportação para trabalhar na reabilitação de jovens através de actividades educativas e recreativas. Não é a primeira vez que vai trabalhar numa missão, porque já esteve em Moçambique, no Verão de 2005, mas agora é por mais tempo: um ano. O desafio é encarado “com serenidade”.
“Foi uma decisão muito maturada e, por isso, vai resistindo a alguns medos naturais pré-partida”, afirma Sónia Pinho. “O maior receio – continua – é mesmo o da hipótese de não conseguir estar à altura da vivência que me aguarda. Neste momento, a minha ideia, ainda muito incipiente, é que terei a oportunidade de aprender muito, de fazer coisas, também, claro. Mas sei que vou aprender muito e, dessa forma, potenciar os trabalhos futuros cá. Vou de mente, coração e braços abertos para o que for necessário, para o já programado e para o imprevisto”.
